Leio nos jornais, pródigos em notícias trágicas, que caiu o sino da Praça da Sé. Nem São Paulo protegendo, ele ficou no pedestal. Caiu parte da ponte da rodovia e agora, bem no centro, o sino. Da Sé.
Por quem os sinos dobram, já que de longe, os ouço. E me pergunto. Deixo de lado a objetividade do “cadáver” do objeto caido e me volto à subjetividade do significado do ocorrido.
De plano, fico a me debruçar sobre a simbologia dos sinos. Num grande espectro, tais cores de arco-iris, vou da alegria do nascer à tristeza do morrer. Vou às festas. Vou às exequias. Sinos dizem respeito à exatidão. Das horas, uma vez que, por elas, os habitantes dos lugarejos programavam sua agenda.
Nada melhor que ambiente de uma cidade para refletir metafisicamente sobre o tema. De que valeria um sino escondido na floresta? Sonar para quem?
Cai o sino da Praça da Sé. E ali, no chão do jardim-sem-flor, mal-cuidado, ele queda-se inerte. Seu badalo, simbolizando o balanço entre o bem e mal, trindades já não toca. Seus metais de liga do estanho, ferro e prata, em bronzeado corrompido pelo azinhavre, dureza alguma já registram. Está, parte dele, enterrado no esterco do jardim, estrumes dos pombos que comem pão picado e de cães que passeiam com os seus donos e de ratos, já que ali os há em abundância. Completam o cenário, os restos de fumados papelotes de "crack", ali postos fora, sob o olhar resignado dos transeuntes no caminho do metrô ou dos bancos da Catedral.
Os sinos e as cidades. Esta relação me lembra o livro de Autran Dourado, os Sinos da Agonia, contando a vida modorrenta, mas carregada de romance, de uma familia mineira de um lugar fictício na Minas barroca no Sec XVIII. Um dos personagens, Januário, observando a cidade de Vila Rica do alto da Serra do Ouro Preto, refletia sobre seu destino, suas atitudes. No momento, os sinos dobravam. E como os sinos dobram e redobram, até hoje, por ali. E ele se perguntava se era para ele ou para quem? Uma agonia...
O cair de um sino é um bom momento de uma crônica do Meu Sentir. Dá pra ir, mesmo com um discurso indireto livre, até a Flaubert, quem sabe, e pesquisar, dos habitantes que passam ao largo da cena, pesquisar os seus desejos secretos, seu íntimo pensar, sua inquitude inquietante, que pude sentir da última vez que passei pela Praça da Sé, quando meu olhar se cravou no relógio de algarismos romanos, e logo acima dele, vi a estrutura de madeira que sustentava um sino que devia ter seus 500 kg, a uns 10 metros de altura.
Isto não vai dar certo. Pensei. E agora o vejo, pelos jornais, no chão. Queda-se ali, inerte, como disse. E fico, com saudade de ver Ingrid Bergman e Gary Cooper no cinema, lembrando o best-seller de Heminguay a me perguntar: Por quem os sinos dobram?




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