MINHAS CRÔNICAS - MEU SENTIR


27-8-17


Temporada dos Ipês ( II )

Parte II 

E, nessas reflexões, passou a fase de dúvida. E fiquei com a que melhor soava aos meus ouvidos e se adaptava à beleza dos coloridos ipês que desfilavam na passarela. E me deparei com os ipês floridos. Hummm....que maravilha. Esta frase caberia num "bilhete postal" para Purezinha !

 

Isso mesmo. Nada, discussão alguma retirar pode a beleza do que vemos com os nossos olhares do espírito. Que vá às favas a língua com seus ditirambos ou seus transitivos diretos e indiretos, nos retirando, pro e nominalmente, os direitos de observar o óbvio que insiste em clamar pelo inexorável toque de uma orquestra da natureza.

 

A imagens dos ipês me conduziram à natureza, às árvores, à peroba, uma viçosa árvore, motivo de um conto nos contos-urupês de Lobato, que narra o embate de dois vizinhos, já que a árvore abatida estava na divisa da propriedade e era de um e de outro. A sequidão do tempo veranico por certo era conducente à idéia de suas "cidades mortas" e da leseira de seu indolente Jeca, bonito personagem no romance infantil mas feio na realidade do cotidiano que se repete em tanta jequeira continuada./

 

Imaginei o almoço com os acadêmicos, repuxando nossos risos e matrecolejando gargalhadas. Nossa. Veja só. Que palavras arranjei para este momento. Sim, espere um pouco. Não são minhas. Não há quem não leia o Jurista-Literato Monteiro Lobato e não consiga dele guardar palavras tão bem colocadas.

 

Estivesse ele vendo, hoje, os ipês amarelos, ele renderia graças aos girassóis, tão queridas flores que agora, todas amarelas, compõem este cenário de chuvas que estão por chegar.

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 14h46
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Temporada de ouro dos ipês de Brasilia ( I )

Nestes dias se esgota a temporada dos ipês. E hoje os deparei mais uma vez.Tempo de crônica é todo dia.Mas a dos ipês tem tempo certo. E hoje, ao ver suas últimas demonstrações de exuberância, a pé, via, do carro,ao longo da avenida, aquele desfile de amarelados tons, puxando ao amarelo-elo-eco, muito coloridos que não se contentavam em colorir apenas as campanuladas flores, mas o chão que sustentava as árvores. Tudo amarelo, tão exuberante quanto do uniforme carmim dos guardas reais ingleses. E eu deparei, então, a natureza, literalmente, amarelando, dando vista d´ouro do cerrado ressequido à espera dos primeiros pingos de chuva. Difícil escolher onde estão mais lindos. Gostei de apreciá-los em frente do Superior Tribunal de Justiça e parece que foram florir mais lindo ali, de propósito, nos respingos dos ultimos jatos da Lava-Jato que tantos politicos e querem enterrar de vez, por terem sido expostas tantas chagas de uma "Res Pública", um tanto carcomida pela corrupção desenfreada de aabutres deslavados.

 

A dúvida : eu, à véspera de ir a uma reunião dos acadêmicos de letras, e muito falar com tanta gente versada em língua portuguesa, não podia errar na estrutura da frase que à mente me vinha. Sim, a dúvida era se cabia a expressão “deparar os ipês” ? Transitivo direto ou indireto, pronominal ( exigindo com ou a ) ou, simplesmente pronominal, sem dar satisfação alguma ?

 

Que confusão danada essa de nossa língua, eu me questiono sempre. E não é que vem logo aí um decreto ( a nossa mania de resolvermos as coisas por leis escritas!!!) que exige uma nova acentuação numa discutível afronta à língua que a cada dia se modifica. Tudo bem. Daqui uns dias vão querer proibir o internetês, pois o juridiquês está com os dias contados.

( CONTINUA, PARTE II)

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 14h39
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26-8-17


A doce espera dos encontro dos 50

Dedico-me, hoje, ao evento do dia 6 de outubro próximo. 50 anos de minha turma. Não tenho como não expor minhas impressionistas impressões do que verei, no conjunto dos semblantes de cada um dos 60 que, na década dos 60 em diante, prosseguiram com suas vidas e suas nuances, pontuadas, agora, essencialmente, nas marcas do tempo. Me emocionará, pela tristeza, o momento da citação dos que se foram, uma boa percentagem. Em contrapartida, me animará, tenho certeza, o jovial espírito de grande parte deles, moleques, sempre moleques, no gestual da juventude que nunca se finda, quando o humor está presente. Alguns, acadêmicos, como eu. Escreveram e ainda escrevem suas impressões do mundo e terão muito gosto de fazê-lo aos 50 anos de formados na Academia Militar.

 

Tenho, para dizer o que pretendo, explicá-lo como uma transubstanciação. Evoco um fato para dar os signos de um outro.

 

Melhor me inspire, talvez sim, não o congelamento de imagens em superfícies planas, no milagre de uma fotografia, mas, se o faço em crônica, o toque rápido de tintas, como na pintura de um quadro impressionista, com coloração meramente sugerida, no caso, pelas inescondíveis cãs, emoldurando rostos e olhares ou a falta delas, na composição de uma foto ou de uma pintura. O pano de fundo, a Escola que ali estará com seus portões sempre abertos para seus propósitos, o dia claro, sem chuva e sem nuvens magentas, a música de uma afinada orquestra tocando Carmen de Bizet ou Amigos para sempre.

 

E tudo me lembrará o espetáculo dos verticais e horizontais, o mesmo que inspirou a obra do retrato da Pont d´Argenteuil, de Monet, que coincidentemente, sofria, no mesmo horário do encontro dos 40 anos, uma agressão de um europeu “bando” de humanos, epitecantropos ainda, não eretos.

 

O encontro me motivará, mais uma vez, falar sobre o contraste de verticais e horizontais, coincidentemente o mesmo tema sugerido na agredida obra de arte impressionista. Na horizontal se situarão os que mais não mais estar ali podem. Se esvaíram, antes, em sua trajetória. Na vertical, outros tantos. Presentes no encontro, prontos a mostrar sua caminhada ascendente, e nem o precisavam, pela contagem dos anos, inexorável e visível. Os cabelos brancos dirão mais efetivamente. Assim como no quadro, o espetáculo da geometria ( que espero poética ), se mostrará nos mastros dos barcos à espera da partida, nas adriças e nas enxárcias que sibilam o vento. A ponte, com seus arcos, e seus balaústres combinam com o nível da água do rio amarelo prateado de Argenteuil.

 

Uma ponte é uma passagem. Como o encontro de pessoas com algo que precisa ser transposto. A ponte dos 50 anos de formatura, esta a transporemos, garbosos, esbeltos infeantes. E a caminhada não há de parar.

 

É o que nos mostrará, a pintura pronta, a metamorfose, que encanta, no conjunto, pela palavra e pelo olhar de cada um expondo as respectivas lições de experiência e sensatez, sem contudo, deixarmos, todos, de recair em nossa infância e na juventude de nosso conhecido humor.

 

São estes os coloridos que, tal como numa tela impressionista de D´Esprit, recomporão na distância do 06 Out 67, a visão instantânea de uma juventude que, graçsa ao bom Deus, não se foi embora.

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 19h23
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5-8-17


Coisas de um Açougueiro ( II)

continuação...

 

Cidade pequena, alguém foi contar para o Lázaro. Até que um dia Ovídio entrou no açougue. O Lázaro pegou aquela machadinha do ofício e, enquanto ia desferindo violentos golpes no tronco de cortar carne, ia dizendo, pelas palavras mineiras do Mario Palmério://

– Olha, moço: minha Maria não é peixe para seu anzol. Você vai pescar noutra freguesia. Aliás, se aceita um convite, pegue seu barco e suma da cidade (passava a lima no corte do machado e desferia mais golpes). Ou então, pare com essas suas andanças que a Maria prefere carne a peixe.//

Ovídio ouvia tudo de olho na machadinha. Diz o Mario que ele chegou a pedir desculpas e que não se preocupasse: ia sumir do pedaço.//

Ovídio não se mudou, mas deixou a Maria que voltou a viver numa boa com o marido. Mas, com o passar do tempo, as carnes de Maria voltaram para a cabeça do peixeiro amante. E Ovídio voltou ao pedaço, já se esquecendo da machadinha.//

Novamente o alcoviteiro foi aos ouvidos do Lázaro. Era de manhã e o sangue subiu pra cabeça do homem. Pegou a machadinha e partiu célere para a casa do comborço. Ao atravessar a pracinha, ouviu a notícia. Seu inimigo havia morrido de madrugada. Ataque do coração.//

Voltou para o serviço. Aquele desgraçado estava morto, não ia mais incomodar sua mulher. Mas a necessidade da vingança não saía da cabeça dele. Pegou de novo a machadinha e foi até o necrotério. Ia decepar a cabeça do Ovídio, mesmo morto. Ia mostrar para a cidadezinha quem é que era o dono da Maria.//

Chegou lá e foi fácil achar o corpo do defunto que aguardava a autópsia. Ficou olhando para aquele corpo frio, aquele amontoado de carne. Não satisfeito em cortar a cabeça do sujeito, antes, porém, resolveu dar uma surra no morto.//

Segurou o pescoço do corpo inerte e começou a bater a cabeça dele na laje fria. Sacudindo, xingando, com ódio.

E agora, acredite quem quiser: com aquelas porradas todas o Ovídio voltou à vida. Lázaro ressuscitou o morto. Depois teríamos a explicação médica: havia sido um caso de catalepsia.//

O morto acordou apanhando do marido e saiu por uma porta, nu, correndo. Lázaro, com a machadinha na mão, saiu pela outra porta correndo mais ainda e nunca mais foi visto na Amazônia.//

Ovídio está casado com Maria, vivem muito bem. E tiveram um filho que se chama Lázaro.//

 

E, me disse o Mario Palmério, a Maria anda toda ressabiada pelo Agenor, o novo açougueiro.//

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 13h27
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Coisas de um açougueiro ( I )

Estive hoje no T-Bone e revi o Amorim. Ele cortava, com todo o gosto e competência, os bifes de carne suina. Nada de porcaria. Tudo limpo, apesar da carne de porco. Um açougue "modelo" e este nome me levou a Uberaba, onde morei e estudei na Faculdade de Direito ( vizinha do Mercado Municipal e em frente à Faculadde de Medicina)  do Mario Palmério, com quem tive oportunidade de conversar, à moda mineira e ouvindo os "causos" deste Brasil afora. Bons tempos.//

Mas a ida ao T-Bone me trouxe à mente uma crônica do Mario Prata, tb da familia do Palmério. E entre as relembranças , ouso aqui e me sinto autorizado pelas bons lanços de mineiridade a replicar uma crônica modelo, do meu jeito, envolvendo os temas do Mário com os do Açougue Cultural e do Amorim, este amante da literatura que conseguiu reunir as sutilezas dos "prazeres da carne" e sua dedicação ao mundo dos livros. Então...segue o texto://

 

"Quem me contou essa história foi o escritor e imortal Mario Palmério. O Mario que morreu há pouco tempo, o Mario igualmente lá de Uberaba, Minas.//

Depois de descrever o Chapadão do Bugre lá na Vila dos Confins, depois de virar deputado federal e depois de entrar para a Academia Brasileira de Letras, largou tudo, comprou um barco e uma índia e ficou uns oito anos subindo e descendo o Amazonas, pensando e fazendo bobagens (no bom sentido, como deve ser toda bobagem).//

Parava naquelas cidadezinhas, ficava uns dias, ouvia uns casos. Nunca me disse se pretendia escrever um livro tipo Igarapé do Bugre ou Vila dos Manaus. Mas contava – oralmente – casos amazonenses.//

 

Um dia, deitado na sua rede na fazenda lá em Uberaba, relaxava seu corpo alto, suas melenas brancas e longas e coçava o saco. O Mario adorava andar nu. Seu lado índio. Acho que ele tinha um pé na selva amazônica. O caso que ele contou://

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 13h25
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Coisas de um açougueiro ( II )

Continuação....

 

Ovídio ouvia tudo de olho na machadinha. Diz o Mario que ele chegou a pedir desculpas e que não se preocupasse: ia sumir do pedaço.//

Ovídio não se mudou, mas deixou a Maria que voltou a viver numa boa com o marido. Mas, com o passar do tempo, as carnes de Maria voltaram para a cabeça do peixeiro amante. E Ovídio voltou ao pedaço, já se esquecendo da machadinha.//

Novamente o alcoviteiro foi aos ouvidos do Lázaro. Era de manhã e o sangue subiu pra cabeça do homem. Pegou a machadinha e partiu célere para a casa do comborço. Ao atravessar a pracinha, ouviu a notícia. Seu inimigo havia morrido de madrugada. Ataque do coração.//

Voltou para o serviço. Aquele desgraçado estava morto, não ia mais incomodar sua mulher. Mas a necessidade da vingança não saía da cabeça dele. Pegou de novo a machadinha e foi até o necrotério. Ia decepar a cabeça do Ovídio, mesmo morto. Ia mostrar para a cidadezinha quem é que era o dono da Maria.//

Chegou lá e foi fácil achar o corpo do defunto que aguardava a autópsia. Ficou olhando para aquele corpo frio, aquele amontoado de carne. Não satisfeito em cortar a cabeça do sujeito, antes, porém, resolveu dar uma surra no morto.//

Segurou o pescoço do corpo inerte e começou a bater a cabeça dele na laje fria. Sacudindo, xingando, com ódio.

E agora, acredite quem quiser: com aquelas porradas todas o Ovídio voltou à vida. Lázaro ressuscitou o morto. Depois teríamos a explicação médica: havia sido um caso de catalepsia.//

O morto acordou apanhando do marido e saiu por uma porta, nu, correndo. Lázaro, com a machadinha na mão, saiu pela outra porta correndo mais ainda e nunca mais foi visto na Amazônia.//

Ovídio está casado com Maria, vivem muito bem. E tiveram um filho que se chama Lázaro.//

E, me disse o Mario Palmério, a Maria anda toda ressabiada pelo Agenor, o novo açougueiro.//

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 11h49
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Coisas de um açougueiro fiel ( I)

Estive hoje no T-Bone e revi o Amorim. Ele cortava, com todo o gosto e competência, os bifes de carne suina. Nada de porcaria. Um açougue "modelo" e este nome me levou a Uberaba, onde morei e estudei na Faculdade de Dirieto ( vizinha do Mercado Municipal e em frente à Faculadde de Medicina)  do Mario Pamério, com quem tive oportunidade de conversar, à moda mineira e ouvindo os "causos" deste Brasil afora. Bons tempos.

E não é que a ida ao T-Bone me trouxe à mente uma crônica do Mario Prata, também da familia do Palmério. E entre as relembranças, ouso aqui e me sinto autorizado pelas boas lembranças mineiras a replicar uma  belo escrita, do meu jeito, cronista portanto, em teor evolvendo os temas do Mário, dos Açougue Cultural e do Amorim, este admirável amigo que conseguiu reunir as sutilezas dos "prazeres da carne" e sua dedicação ao mundo dos livros. Então...segue o texto:

"Quem me contou essa história foi o escritor e imortal Mario Palmério. O Mario que morreu há pouco tempo, o Mario igualmente lá de Uberaba, Minas.//

Depois de descrever o Chapadão do Bugre lá na Vila dos Confins, depois de virar deputado federal e depois de entrar para a Academia Brasileira de Letras, largou tudo, comprou um barco e uma índia e ficou uns oito anos subindo e descendo o Amazonas, pensando e fazendo bobagens (no bom sentido, como deve ser toda bobagem).//

Parava naquelas cidadezinhas, ficava uns dias, ouvia uns casos. Nunca me disse se pretendia escrever um livro tipo Igarapé do Bugre ou Vila dos Manaus. Mas contava – oralmente – casos amazonenses.//

Um dia, deitado na sua rede na fazenda lá em Uberaba, relaxava seu corpo alto, suas melenas brancas e longas e coçava o saco. O Mario adorava andar nu. Seu lado índio. Acho que ele tinha um pé na selva amazônica. O caso que ele contou://

A cidade do interior do Amazonas era pequena. Uns cinco mil habitantes. Tinha lá um açougueiro chamado Lázaro (mais pra frente você irá sentir a ironia do nome). Pelo menos o ficcionista disse que ele se chamava Lázaro. E o Lázaro tinha uma bela mulher chamada Maria. Sim, chamada, porque diz o Mario que era chamar que ela ia. Danada, a Maria.//

Eis que Maria arrumou um amante. Um amante fixo. O nome dele era Ovídio e vivia da pesca. Sem trocadilho nenhum, Ovídio pescou Maria e a envolveu em sua rede.//

Cidade pequena, alguém foi contar para o Lázaro. Até que um dia Ovídio entrou no açougue. O Lázaro pegou aquela machadinha do ofício e, enquanto ia desferindo violentos golpes no tronco de cortar carne, ia dizendo, pelas palavras mineiras do Mario Palmério://

– Olha, moço: minha Maria não é peixe para seu anzol. Você vai pescar noutra freguesia. Aliás, se aceita um convite, pegue seu barco e suma da cidade (passava a lima no corte do machado e desferia mais golpes). Ou então, pare com essas suas andanças que a Maria prefere carne a peixe.//

 

Continua...parte II

 

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 10h56
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