MINHAS CRÔNICAS - MEU SENTIR


03/07/2009


O Dia de São Tomé

Ver para Crer

 

Umberto Eco, sempre por mim citado, escreveu um livro sobre a incredulidade. O título: “Em que crêem os que não crêem”. Não falarei sobre esta obra, que filosófica e religiosa, não cabe numa crônica. Mesmo sendo hoje o dia de São Tomé. Sim, aquele que não quis acreditar na história, que achava de carochinha, e quis botar o dedo na ferida. Se deu mal o coitado. Quis dar uma de engraçadinho e caiu do cavalo. Ficou como símbolo da incredulidade assim de graça. Ou seja, mesmo diante de um nariz grande de Pinocchio, ainda achava que o cara não estaria mentindo.

 

Diante dessa confusão no Senado da República, eu me lembrei de um texto latino sobre um dos Imperadores de Roma. A gente traduzia no colégio, diretamento da fonte. Não tínhamos como não acreditar.

 

Um dia, chegou o Professor, muito brincalhão e apresentou o texto a ser traduzido. Era sobre um Cavalo que o Imperador nomeara Senador. Era um texto intrigante. Ou melhor, excitante. Muito excitante mesmo de nossa imaginação adolescente, pois a gente via o Cavalo, de terno e gravata, fazendo as leis da República Romana, com toda aquela filosofia herdada dos gregos e de tantos outros povos que eles dominaram militarmente.

 

Não dava para acreditar. Pior ainda quando o texto disse que o maluco Imperador nomeou também o dito Cavalo, Incitatus, assim o chamava, um Sacerdote e mais, construiu-lhe um Palácio de Mármore.

 

O dito Imperador era um doido varrido, odiado pelo povo, mas amado pelos colegas de farda, pois crescera no meio deles, num acampamento militar, tanto que seu nome foi dado como lembrança à palavra “caliga”, que era um calçado militar, uma botina ou bota, dessas grandonas que eles usam para pisotear o inimigo numa guerra que sempre foi e será sempre a mais maluca das invenções do animal irracional chamado ser humano.

 

Quem nunca leu sobre isso, por certo vai rir na minha cara. Não é possivel que isto seja verdade ! Dirá. Mas aconteceu mesmo. Não se trata de uma metáfora bíblica, dessas que a gente entende do jeito que quiser. Aliás, a idéia usar um cavalo como protagonista de uma batalha já fora usada em Tróia. Não se pode dizer que original. Mais atrevido porém foi Caligula, ao fazer um Cavalo um Senador, o que até que seria, para a época, admissível, para não dizer "justificável" – humilhar o instituição-Senado e menosprezar o religioso, todos, sem servir ao povo, uma bagunça danada, envolvidos em falcatruas mil, e como ele, Imperador era movido a orgias e excessos, quis dar um castigo à altura do que sabia fazer, exercendo ao máximo dos máximos sua autoridade, já que seu lema era “oderint dum metuant”, ou seja, que me odeiem, os cidadãos e de mim tremam de medo.

 

Quando hoje, a gente vê sua imagem esculpida em mármore, a gente nem pensa que o cara aprontou tanto e fez tanta proeza. Parece um sujeito dócil e bonito que nem a de David, naquele estátua onde ele está pelado, com as impudicícias à mostra, alheio ao que estiverem dele falando. Mas a sua história deixou marcas. A gente ia traduzindo as palavras e, digo a verdade, tentando não acreditar que os genitivos, ablativos e gerúndios estivessem grafados de forma errada, tamanho o horror que dava o texto em nossa cabeça incerta.

 

Nos tempos de hoje, eu vendo esta confusão danada no Senado, eu me lembrei daquele tempo. Nem sei porque. Ou melhor, até sei. Pois também não consigo acreditar no que estou lendo nos jornais, por exemplo quando se fala em votos secretos, verbas secretas, atos secretos. É segredo demais escondido, só revelados cinco, oito, dez anos depois.

 

Esse pessoal fica criando estes fantasmas, novos incitados marimbondos, com suas botinas caligulares ficam chamando por uma solução radical como se a tal de democracia fosse forte suficiente para tanta bandalheira.

 

São Tomé, Rogai por nós nesse seu dia. Será que é hoje mesmo? Nem dá pra acreditar.

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 21h49
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30/06/2009


Homenagem à Minha Mãe

 

A Homenagem


Que palavras existiriam no mundo para se homenagear uma Mãe?

Qual o gênero que melhor as receberia? A Crônica ? A Poesia ? Um Conto ?  Um Romance ?

Tantas dúvidas...

Então fico com um texto poético que me saiu do fundo d´alma, sabedor de que as palavras não são apenas instrumentos poéticos mas que constituem algo que enlaça a vida ( mesmo em se tratando de um momento de "nova vida" ) ao texto.

Eu, na verdade, quis que as palavras viessem mais de bem mais longe que de mim mesmo, mero locutor ou delas escritor.

 

 

 

 

Judia virgem Mãe do Nazareno

Que assunta aos céus em leve brisa

Leve de mim este recado ameno

 Em seguro tom de quem de ti precisa.


Que teu tisso me apóie a mente

Que me sirva de fulgor a tua vida,

Que musa linda sempre em ti  presente,

Em meu peito forte, garantida.

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 10h30
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27/06/2009


O Brasil Africano

Das trombetas e vuvuzelas

 

 

A crônica de hoje começa incomodando com um instrumento de intervenção divina. Ficamos conhecendo o toque da famosa, na Africa do Sul, vuvuzela, que indica agravo de presença (80% dos torcedores em campo de futebol) com a finalidade de, de um lado, reunir a torcida em favor de uma causa, e em segundo lugar, incomodar ou perturbar o adversário.

 

“Vuuuuuuuuun”, diz o toque retumbante. O brado é alto. E ele lembra a bíblica trombeta de Sião, também usada pelos hebreus em sua história formada de fatos que invocam as orações, a reunião, a luta contra as adversidades e porque não, a alegria de grandes celebrações e até de um casamento, malgrado muitas vezes discutível, este, no seu “infinito enquanto dure”, não só entre os ocidentais, mas em todos os  povos deste universo.”Vuuuuuuuuuuuuun”.

 

Trombetas e vuvuzelas-instrumentos sagrados. Ou malditos. Depende do ângulo em que está o incomodado. O negócio é fazer barulho. Ninguém pode ficar calado. Tem que colocar a boca no trombone.Nada de atos secretos cretinissimos. Estes merecem vuvuzeladas besuntadas de muito barulho.” Vuvuvuuvuunnn !!!

 

Em tempos de gripe suina, um ronc-ronc porcino fica até em segundo plano para se ouvir um tonitroar de uma coisa dessa, zunindo que nem abelha no ouvido, não nos deixando curtir um belo drible. Obnubila-se o grito do goallllll. Perde-se o fôlego, pois tocar uma trombeta é para poucos. Vuvuzela, muito mais ainda. Banguela, por exemplo, não tem vez. Não tem jeito pois sua lingua entopirá o cano. E o tocador entra pelo cano. Só em termos linguísticos banguela rima com vuvuzela. E trombeta, com...escopeta, ou com capeta, sei lá. Coisa do diabo.

 

Mas as letras dizem que trombetas e vuvuzelas são coisas santas. Seria uma voz de Deus ( Ap 1:10 e 4:1). Santos são os seus tocadores nos templos, nos estádios, nas estradas e nos caminhos da vida. Dá pra duvidar? Será que Deus incomoda tanto mesmo? Não é ele que aprecia um silêncio de uma oração santificada?

 

Alguém que me ler neste zoar em cima das trombetas sionenses ou das vuvuzelas africanas poderão repetir os dizeres do evangelista, que estaria repetindo o zunido da palavra do Cristo, assim : «Não deis as coisas santas aos cães nem lanceis as vossas pérolas aos porcos, para não acontecer que as pisem aos pés e, acometendo-vos, vos despedacem.»

 

Eu vejo no troar de ambos os instrumentos, que afinal tem as mesmas raizes, só que um é africano e outro sionês, fenício ou árabe, sei lá o quê, o toque de dizer: “oi, estou aqui” . “ Vuuuuuuuuunn”. Cada um pode aparecer, se mostrar. Incapaz de gritar com a própria voz, usa o chifre de carneiro, de cabra, de vaca, de elefante ou rinoceronte. Não duvido que se porco tivesse chifre, também forneceria um bom material, talvez fizesse um ronc-ronc diferente, mas daria para marcar presença, ou faria uma porcaria.

 

Bom. Já que não tem jeito de não ser zuado, coloque-se um algodão no ouvido ou se siga aquele conselho: “ os incomodados que se retirem”. “ Vuuuuuuuuuuuunn, Santo Deus.

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 11h44
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22/06/2009


Girassóis em ponto de inflexão

Girassóis de Junho


E tempo de frio. Muito frio, gelo puro, malgrado sem neve. E, evidente, sem sol para os girassóis. Não é que estejam tristes. Estão em ponto de inflexão, num momento de despejar as sementes.


Escrevi uma vez sobre eles e os elos e anelos de Amar. Eu quis dizer das preciosidades de nossa língua pátria. Era uma palavra indireta, pois comecei a escrever sobre o amarelo mar de flores que caiam, em setembro, das árvores, não só dos amarelos ipês e e suas campanuladas e viçosas flores, mas de muitas outras árvores, muitas, inominadas, mas presentes, sempre espatódeas. E elas tingiam o chão de um amarelo, tecendo , quase que em plumetis, um tapete maravilhoso ao longo das avenidas


Eram quentes o tempo e o sol. Canícula castigava os corpos insuados que a umidade do ar estava a refletir. E a cabeça quente, os olhos pequenos da claridade infinda, sem o verde dos gramados e do verdejar das folhas, salvam as pinturas de um mar, que nem azul nem verde mais é, amarelo sim.


Eu me lembro de um dos quadros de Manet, com o seu mar que ele tece, talvez nas indefinições de tempo de passagem de estações. O seu mar também é carregado de amarelo. Nem consigo imaginar que os elos de um mar, levem a amar, tudo é possível, pois sei que se ama mesmo nas ondas curtas de alguma curtição longínqua. O mar de Manet me leva à mania dos elos do mar, figura simbólica do nosso visual. O mar é o berço e o fim. As águas que ali existem assistiram o nascer da vida. E também representam o fim de caminho de todas as águas para o seu renascimento, mesmo que seja em tufões, em tsunamis, em aguaceiros que agora estavamos a esperar ansiosos um reinício qualquer.


Eu olhava o quadro e sei que nele o sol nunca se punha. Via sempre um girassol-de-mim-mesmo, sempre presente, muito presente. Ali há uma vida muito forte.


E hoje, pelo caminho, eu vi pés de girassol em inflexão. Secaram-se com o frio. Terminaram o seu ciclo e estão a despejar sementes. Renovo a idéia de um conjunto de elos muito poderoso. A tessitura das idéias e das palavras acabam se tornando mãos invisíveis a acalentar a minha alma, num tempo que pede impaciência , mas que eu respondo com a leveza e com a delicadeza de exercitar este meu veio de cronistas.


Paro e reflito. Quando novas sementes estiverem brotando do chão, eu os verei novamente, buscaram o seu astro predileto e me inspirar para um novo escrito.

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 20h33
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18/06/2009


O 2012 do Calendário Maia

Novo Apocalipse


Estive no Rio. Do Santos Dumont, de cara vejo o Cristo Redentor abençoando a maravilha de cidade, não sem antes, ainda no ar, da janela do Boeing, poder sentir-se à sua altura, quando se prepara o pouso em sobrevôo à Guanabara.


É um privilégio ver isto. Encosto o jornal que ao lado me deu noticias não muito boas, já que amam mesmo um desastre. Aliás, vi uma noticia boa. É que uma de minhas crônicas pode agora ser publicada em um jornal sem que se encoste em mim algum idiota a me cobrar um curso de jornalismo para fazê-lo.


Ouço isto desde os tempos da ditadura, que muitos jornalistas diplomados criticavam mas não deixavam de exaltar, em proveito próprio, a esdrúxula exigência do decreto ditatorial da reserva de mercado. Ainda bem que a net veio dar-lhes, com os blogs, um tremendo drible de pedalada do Robinho.


Volto às noticias desastrosas, sem querer ficar repetindo muito, coisa que a letra da boa nova de hoje recrimina, pois não é a repetição eterna do pedido que o fará atendido pelos céus, mas a nossa confiança em nossa energia pessoal em harmonia com o universo em nosso favor. Como dizem, “conspirando” em nosso proveito. Destesto o emprego do verbo neste caso, mas o faço de sacanagem mesmo.


Por falar nisso, ou seja, conspirar, quem o está fazendo é a Columbia. Em novembro chega por aqui o seu último filme – 2 012, cuja primeira frase é “ este dia chegará...”. Coisa apocalíptica, portanto.O pior foi ver, no avião, o trailer do filme, com o Cristo Redentor indo pelos ares, esfacelado., picado em pedacinhos menores que uma pedra de estilingue.


Tenho que ir aos gregos para me colocar a par sobre o significado das coisas. Amavam a tragédia e a poesia. A função do mito era de por os humanos em contato com o universo, restaurando uma harmonia entre ele próprio – essência humana – e o real ameaçador.


Por certo e em razão disso foi que o calendário Maia previu o fim do mundo em 2 012. Eles já se foram, nos deixando a indagação da possibilidade. E o autor do Independence Day imaginou novas cenas de ficção desastrosa, caprichando na escolha dos locais – o oceano tsunâmico, a Capela Sistina, O Vulcao Etna, a Praça da Paz, a Caaba e o Cristo.


Falei sobre isso com amigos e seus comentários, sempre maldosos, porém intrigantes, dizem que esqueceram as torres gêmeas da Esplanada dos Ministérios. Mas esta acho quem nem vai ser preciso pois a coisa por lá anda meio desastrosa, não o desastre tipo Bin-Landen, mas das mentes mesmo, pois vai ficando difícil achar quem as possa defender do jeito que estão.


Do novo apocalipse quem nos salvará? Não adianta repetir a pergunta, já que ela vale como um malamém de que nós mesmos é que temos que nos livrar. Amém.

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 22h20
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13/06/2009


O Espírito e o Corpus Christi

Do Corpus Christi e do dogma da Cruz

 

Hoje vou abrir uma exceção – falar sobre um tema de religião. Confesso que não quero polêmica alguma. É que na quinta foi dia da comemoração do Corpus e tal fato me permitiu refletir sobre o assunto, eu que vivi tanto tempo numa cidade que se preparava o ano inteiro, guardando e colorindo serragens, para que os artistas, pudessem no exato dia, exercitar sua arte pictórica nas ruas desenhadas tão lindamente, à moda dos tapetes à espera do pálio e do ostensório.

 

A pergunta – o que é mais importante: o dogma da morte na Cruz ou o simbolismo do martírio do Cristo no derramamento de seu sangue?

 

Parece uma apostasia o que eu escreverei. É que a paixão humana de Jesus, e consequentemente, o seu sangue derramado nas ruas assumem conseqüência maior que a sua ressurreição, ou até mesmo que a mecânica de sua crucificação.

 

Estou escrevendo um livro sobre um padre, no interior do sertão das veredas, que se julga o dono do pedaço, a ponto de se ver um suzerano medieval. Até um Castelo ele quer construir, veja só. Sim, com zigurate e tudo que tem direito. Foi o capitulo que escrevi hoje. Acho que vou desagradar meio mundo com isso. Mas não tenho culpa se minha arte criativo-literária me pediu para escrever isso. E está escrito.

 

Quando eu falei da procissão, enfoquei a soldadesca romana espancando o Cristo. E confesso que seu sangue ficou derramado nas ruas das páginas de meu livro. Eu precisava desta cena para dar força à violência de um dos jagunços do Padre, que se deliciava com um comportamento doentio.

 

Neste contexto eu me lembrei do Papa João recente. Ele teria sido membro de uma sociedade secreta – dos rosacruzes – e, por isso, reforçou a idéia de que inexiste incompatibilidade entre ser maçon e ser católico. E num texto que falava do “precioso sangue de Jesus”, ele respondia a pergunta acima. “ A morte de Jesus na Cruz não mais é um dogma necessário à fé romana católica” ( in Michael Baigent et allii – O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, Ed Nova Fronteira).

 

Acredito que a mensagem papal veio na hora certa . Talvez ele, que tenha tido um pontificado tão curto, tenha falado mais que tantos outros, numa hora certa e no momento exato da harmonização da humanidade.

 

Estamos precisando muito de esclarecimentos assim tão singelos, mas tão profundos, embora ainda apareçam os espíritos de porco para espinafrar. Mas a vida é assim mesmo na sucessão continua dos Joões, com uma função papal mais esotérica que exotérica, que já começou o papado escolhendo um nome que foi do último anti-papa, em 1415.

 

Qual o porquê de tudo isso?

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 16h35
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10/06/2009


Dos Ritmos e do Caos

Tempos de abundância


A recessão. Ela chegou...dizem que branda, mas tecnicamente, já está na praça. No carro, a caminho do Tribunal, estou no ritmo de Michael Jackson. E o vejo, fenômeno-dançante, com aqueles passos em que anda de ré, dando a entender que mexe com o cenário, que “anda”, em nossa percepção, pra frente. Devo estar tonto, me recrimino. É que eu lera, na noite anterior, dois capítulos do Livro “Dos Ritmos ao Caos”, Ed UNESP, de Pièrre Bergé et alli, cientistas do CEA e CERN, da Física Atômica. Me chama a atenção a abundância de “caos” em que vivemos. Em ordem, diga-se.


Incrível como as coisas me acontecem. No trânsito, estavam à minha frente, dois caminhões de tansporte. Um de melancia e o outro, infelizmente, devo falar a verdade, de bosta. O primeiro levava aquele monte de frutos, muito graúdos e destacava-se por sua exuberância. Uma abundândia, assim o digamos. O outro, trazia o “produto” em caminhão tanque, e era de uma desintupidora de esgotos. Um limpa-fossa. A abundância, no caso, havia. Em ordem. Mas invisível, todo mundo sabia de que se tratava. Pelo odor malcheiroso que ia deixando no seu rastro. Pedestres e Motoristas que se cuidassem. Alguns, mais enojados, tapavam as narinas. Mas não adiantava, os olhares se abriam na recriminação da abundância catinguenta.


De repente, eles tomam, cada um, um lado da Avenida. Estão a 60 km/h. Sinto a ordem que eu passe entre ambos. Vá. Vá. Em frente! Tento. Mas me lembro da possibilidade do caos, se ambos, de repente, despejarem seu produto em cima de mim. Ia ser uma confusão total. Merda e Melancia juntos. Não dá. Quem nem o bailarino, recuo. Entro em recessão. Fico na minha. E eles se perdem no horizonte.


E continuo meditando, malgrado o cenário catinguento. Coisa interessante, esta da abundância. Colecionadores exóticos gostam disso. Conheço uma vizinha que coleciona corujas. Tem umas mil. E como sua fama já ganhou meio mundo, ela ganha uma, no mínimo uma vez por semana, de presente. Se tem gente batendo à sua porta, se não é mendigo, é corujeiro. E ela abre aquele sorriso de felicidade. Conheci também uma outra colecionadora exótica. De elefantes. Nestes a abundância é óbvia. Nem precisa dizer. O pior é que, dizem os supesticiosos, eles hão de ser colocados de bunda para a porta da casa. Só pra arrumar e limpar, são dois ou três dias de trabalho. Há uma ordem. Um prazer, pode-se dizer, caótico.


Dizem da melancia ser um fruto não-climatérico. É fundamental, para seu transporte com sucesso, que tenha “casca grossa”, pois somente assim ela aguenta o tranco, isto quando não derruba o carregador incauto, que cai pra trás, humilhado, quando a pega, desprevenido, nos braços. É preciso ser macho pra pegar um trem daquele, fora as más línguas que dizem que não é fruta para se comer sozinho. Ademais ela teria um tal de “nitrato de amônia”, um produto que teria odor próximo do produto do segundo caminhão, caso venha reagir com um outro químico, cujo nome agora me escapa.


Como se vê da descrição, elas, se ficam muito tempo armazenadas, costumam azedar. Mas, se bem tratadas, durariam uma “eternidade”. Deve ser por isso que a botânica as diz “não-climatéricas”, ou seja, algo referente às fêmeas, que ficam quietas, desde que não se remexa sua ordem particular feminina. No caso do caminhão, bastaria o pino de ferro se desentarraxar e viriam todas, todas mesmo, para o asfalto. O caminhão limpa-fossa derraparia, e virado, tudo seria uma borrasca completa, um caos perfeito, se perfeito o caos o possa ser. Merda e Melancia às pamparras.


Bom. Dei uma de Michael. Fiquei pra trás. E os deixei fluir, na reflexão do que li do Livro de Bergé: “ Até os sistemas dinâmicos mais simples podem ser impreditíveis e apresentar uma evolução caótica”. Se existe o caos, qual a interferência dele, em nosso cotidiano?

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 12h38
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08/06/2009


Saint-Exupèry e Saint-Esprit, sobre o caso do A-330

A sabedoria de Riobaldo

 

Rápida viagem me levou ao Atlântico. Eu e o oceano, com seu enigma de grandiosidade. Eu me sentia minúsculo. Ainda o quero entender. Tão lindo e tão trágico. No acidente que nos deixou em luto, estava um Maestro de famosa orquestra. Ele não teve dúvida em silenciá-lo no ritmo de suas vagas.Também silenciou histórias. Tristes, umas. Alegres, outras tantas. E eu ali, diante do mar, tentando decifrá-lo. Transversalizo fluxos filosóficos, científicos. Nos mítico-poéticos, encontro musas que agora enlevam um regente de sua osquestra. Mas nada me apazigua a alma. Inexplicável. Por vezes, chego a me julgar um “homo-non-sapiens”. Um João-Ninguém, ainda mais diante do fato de que Exupèry voou nesta mesma rota, há uns 60 anos, num aviãozinho quase que de papel...

 

Ouço no rádio a noticia de começam a boiar os corpos dos passageiros do Air-Bus. Fiquei me lembrando dos heróis gregos e sua luta. Um cenário sempre com muita água junto. Subo no mais alto ponto do mirante do arquiteto de cem anos. Vejo o mar. Fico na pontinha dos pés para ver se consigo ver as grimpas da Torre Eiffel ou, se mais perto, alguma corcova de camelo a vagar perto da Pirãmide de Queops, com sua Esfinge nos olhando com cara de desafiadora filosofia.

 

“Mas mor o infernal a gente também media. Digo. A igual, igualmente. As chuvas já estavam esquecidas, e o seu miolo mal do sertão residia ali, era um sol em vazios. A gente progredia de umas poucas braças, e colocava o reafundo no areião – areia que escapulia, sem firmeza, puxando os cascos dos cavalos para trás.”

 

Este é um trecho da fala de Riobaldo que fui procurar para reafirmar o que desejo dizer depois de ir a João Pessoa. Um Estado pobre, mas de uma riqueza enorme. Muito perto, no modo de ser paraibano, das Minas. O sertão das gerais. A leitura parece querer levar a um lugar inferior, um tipo “inferno”, um tipo de “deserto”, como se fosse de tudo desprovido, mas que para muitos é o céu. Um seu céu particular.

 

Estive no lugar mais oriental das Américas, o famoso Cabo Branco, onde tem uma obra de Niemayer, que sem querer fez nele um “up grade”, talvez, na linguagem militar, o promovendo a Coronel, ou a General. E sem preconceito de cor, pois continua branquinho da silva, como o vi nos idos de 1 979, quando por lá passei, e pude ver as falésias, já nascentes, estarem aumentando que nem as voçorocas do Centro-Oeste mineiro, a terra querendo mostrar suas reeentrâncias, no “intuito” de dizer que não existem “lugares inferiores”.

 

Me sinto aliviado com a fala de Riobaldo. Progredi, apesar de em poucas braças. Meu espírito permanece na incerteza. Chego a pensar que não há morte mais nobre que a de ser engololido por um oceano. Se dele partiu a vida dos homens, por que não pode lhes aplicar, o mar, o silêncio da morte ?

 

Sei que meu espírito helênico me diz para ficar tranqüilo. Exupèry vem em meu socorro para me dizer que se até Homero morreu de desgosto sem conseguir decifrar o enigma dos pescadores que catavam, em si mesmos, piolhos, à beira-mar ( depois de uma viagem de pesca malsucedida ), por que haverei eu de me exasperar?

 

Calma, José. Me diz uma voz: "Tome água adocicada. Ou melhor, coma docinhos de tangerina, cristalizados. Fique, por enquanto, com a sabedoria de Riobaldo, contido pelo rio. Por vezes, os cavalos pisam na areia, regaceiam ir em frente, dela seus cascos escapolem. Mas continue a indagar. Estás em bom caminho. Siga a frase de Raul Seixas: “ tente outra vez”.

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 10h39
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02/06/2009


O Titanic e o A-330

As tragédias e a poesia

 

Leio nos jornais que morreu hoje a última sobrevivente do Titanic. E, neste mesmo dia, ocorre um terrível acidente com um A330, que iria do Rio a Paris. Não chegou. Ficou a meio caminho, no trajeto inverso do navio dos sonhos, porém no fundo do oceano, um e outro. Se as grandes tragédias deram motivo a literatura/cinema, é melhor que se fique ouvindo as notícias sobre o enfoque diversionista. De vez em quando é preciso fazer certas abstrações de desastres e vê-los sob o enfoque das letras, da manifestação do inexorável, do infinito, enfim, do enigma. Nem que seja poesia. Nada mais humano que a poesia.

 

Coloquei em campo o imaginar. Vi, por exemplo, Millvina Dean ainda perambulando em Londres nos idos de 1912. Ela estava com uma amiga num “pub”, era ainda menina moça, e ficou ouvindo um poeta recitar assim: “Sou um “gauche” na vida, mas vivo feliz. Em andrajos me visto, mas escrevo. Emociono as pessoas, este meu desiderato. "A torto e a direito, sigo certo e direto/Por trilhas, em rípios, de buscar direito/O direito de ser reto e direito, mesmo/De esquerdo coração “gauche” à esmo...”. Ela o ouviu maravilhada. Saiu dali com o pensamento nas cenas que acaba de presenciar, quase tropeçou nas papóias do porto de Southampton, eram grandes, ouvira dizer que as haviam colocado ali há pouco, pois no estaleiro próximo se construía um grande navio, o verdadeiro navio dos sonhos, que Titanic haveria de ser batizado pela Rainha e ao mar se lançaria para uma viagem à América, muito embora não faltassem os agourentos, como os há em todo lugar, chamando-o de nau dos insensatos.

 

Ela teve uma idéia, estava próximo o seu retorno e iria propor a seu pai que se comprasse os bilhetes de passagem, pois imaginou, desde logo o charme daquela viagem que seria inesquecível, realmente dos sonhos, no peito de um dos gigantes descendentes de Saturno. Naquele dia em que tivera aquela idéia, algo diferente no tempo indicava certa apreensão, mas deixou-se levar pelo impulso de ir. E a viagem foi inesquecível mesmo. Ela teve muitos motivos e muitos anos de vida para curtir tantas lembranças.

 

Mais tarde, ainda plena das lembranças, Millvina procurou saber quem era o poeta. Ele não disse o nome. Se disse um espírito qualquer. E ela, lhe contando o feito, teria dele ouvido mais uns versos, assim, não sem antes dizer que não embarcaria, nem morto: “Se me tacham de sandeu ao admirar um seixo/Catado em qualquer ponto desta cruel cidade /Em labor diuturno de garimpo, não me vexo,/Se mãos do homem trolho me dizem a verdade.” E ela lhe teria dado de presente, uma pedrinha, um tipo de strass, imitando um “diamond for ever”, que enfeitara o enfeite de seu sapato, comprado para a viagem, mas que esquecera em casa, salvando-se da tragédia, mas servindo, dela, de carinhosa referência.

 

O poeta ficou embevecido com o presente. Virou um louco de pedra. Loucos de pedra e sobreviventes de grandes tragédias não teriam motivo para um longo tempo de curtição ? Fico, agora, a me perguntar. A poesia é o leniente de almas inquietas. Versejemos. Eu digo. E me pergunto. Existe este verbo?

 

Mais que o verbo eu descubro é uma coincidência que ninguém terá ainda registrado. Neste mesmo ano de 1912, o Prof Carlos Goes, lançava em Minas, o seu Dicionário de Afixos e Desinências, e no vocábulo “trans”, ele anotou o que eles exprimiam : aumento, mudança de estado, através, negação e por último, a idéia de “além”, dando o exemplo da palavra “transatlântico”. Teria ele feito referência ao Titanic? Ou era uma premonição do A-330?

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 19h00
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30/05/2009


Reflexões Gregas

Têmis e Cupido


Os zéfiros ( nada a ver comigo, sim?)hoje sopram por aqui e suaves levam minhas letras a duas referências gregas. De um lado a Justiça. De outro, o Amor. O Feminino e o Masculino. Uma é certinha, no jeito mineiro de falar. E-qui-li-bra-da. O outro, com um sentir cupidinário, é um de-sas-tra-do (o que não é segredo pra ninguém a partir daquele dia em que atirou uma flechada em si mesmo e se apaixonou perdidamente pela Psiquê). E o mundo, entre o equilibrio e o desastre, continuou sua jornada. Os seres humanos foram se tornando mais complexos. Alguns temem o Cupido, mas o buscam, dia e noite. O resultado? E fico, a me perguntar, de modo bem libriano: como relacionamentos românticos, entre os mortais, hão de ser tratados, quando se trata de aplicar-lhes os princípios da Justiça?


Um exemplo: uma Lei recentemente denominada da Penha veio proteger o sexo dito frágil. Vem atirando do penhasco um monte de babacas. Uma questão de Justiça, tomando-se em conta o alvo direto da violência, dita doméstica, com os enfoques culturais que a servem de suporte. Mas, digamos que o jogo vire, como no caso do noticiário de hoje, quando um cidadão flagrou uma zinha, num bar, a qual, em plena cupidez, além de lhe tomar-lhe a mesa que ocupava, estava a bisbilhotar sua pasta, enquanto ele ia fazer xixi. Chamando-lhe atenção para o malfeito, acabou por apanhar dela. Em público. Nem se peça para que vá ser castigada em um lugar arenoso e deserto, pois poderá dar uma de Psicada. Pronto, o estrago vai ser maior. A melhor justiça para um caso deste é chamar é cara de bobo. E ele vai se sentir feliz por isso.


De ser ver o quanto difícil aplicar a justiça do caso concreto. Eu li hoje, que houve uma sistematização geral para que a sociedade brasileira viesse conhecer os rumos que vem sido dados por Themis às questões provocadas por Cupido, quando a coisa não tenha fluido bem nos relacionamentos, a ponto de resultar nas infrações das leis instituídas. A questão do dever filial, então!!! A maioria não está nem aí. Só querem lucrar. Os idosos, como há casos de malquerência.


Muita gente estranhou. Acho que o mundo digital veio proporcionar, pela primeira vez, a divulgação das linhas gerais dos julgados nos casos concretos, sempre com os segredos das iniciais e restritos aos estudiosos das relações humanas, sob o enfoque jurídico, no complexo ramo do direito de família. Botaram, mesmo, com a divulgação, o dedo na ferida. E isso é muito bom. Têmis foi sábia e falou a voz do Universo.


Não é tão simples quanto parece. Aquele caso da indenização à família da noiva enganada poucos dias antes do casório, quando as despesas estavam todas contratadas, é um fato concreto. Fica-se a imaginar o quanto um indivíduo vacilante em seus propósitos consegue enganar a parte contrária e na maior cara de pau, ainda sai achando que está tudo bem. Só mesmo Themis, com sua espada, olhos vendados, para lhe aplicar o castigo merecido pelo ilícito civil.


Confusão é que não vai faltar. Toda hora tá acontecendo. Cada uma mais cabeluda que outra. Mas o que tem de “mau caratismo” por aí afora não está escrito. A maioria das pessoas são “burras” e acabam envolvidas. Ex- Aquele negócio de mandar vigiar e gravar o outro, que coisa horrível !!! Têmis, com seus oráculos dirá as razões, não só da Terra, como queriam os gregos, mas também dos céus, como queremos nós, pobres mortais. A nossa Têmis maior, eu a vejo sempre, não está de pé. Está sentada, e numa pose até mais imponente que lhe conferiram gregos e romanos, seus idealizadores que a batizaram. O que não pode é algum engraçadinho ir lá e abusar, já que está à altura das mãos. Ou então dizer que “ se queres Justitia ( seu nome em Roma ), espere sentado”. Ela tarda, mas não falta.

 

Tomara que o ditado popular esteja certo. Vamos esperar que seja esta a ordem natural das coisas, mesmo que se trate de causas impossíveis de resolver como as que tenham sofrido as flechadas, ora bem dadas ora mal dadas do tal Cupido.

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 17h27
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27/05/2009


O sentir e o pensar um objeto

 

As Colunas da Justiça

 

 

Que maravilha de foto esta que me captou hoje ! Estou orgulhoso de mim mesmo. Acho que a foto justifica o livro-ensaio que escrevi sobre o mundo da fotografia – Os Olhares do Espírito. São as Colunas da Justiça. As letras estão maiúsculas de propósito. É que saí de uma audiência de julgamento, num caso que não posso deixar de expor meus conceitos em torno da questão.

 

Uma digressão. Será um blog um novo tipo de confessionário? Bom, se entendermos esse ofício como a tarefa de dizer, a si mesmo e a outrem, um sentir, em crônicas, talvez sim. Eu, com as minhas menineirices. Adoro-as. De repente, cabe aos leitores a tarefa de decifrar os códigos num gênero em que a obra e a vida se nutrem. Quer coisa melhor? Tenho dito aos meus amigos que me meto na literatura para esquecer o juridiquês. Porém, hoje eu deles faço o casamento.

 

Retornemos ao assunto. Estava sendo julgada a extradição de um traficante. E, de repente, um choque, não de idéias. Mas de palavras. O crime no país de origem era “ conspiracy”, traduzido como “conspiração para” (intenção, cogitação) mas a letra jurídica, por aqui, dizia “associação para”( com atos concretos para).

 

Eu, ouvindo, não fiz ouvidos moucos. Em muito discutir já o teria extraditado. O problema não é nosso. Já os temos demais. Porém, há regras matemáticas a serem observadas. As Colunas da Justiça, tais quais a do corpo humano, a mantem de pé. São seu fundamento. E tortuosidades não lhe cabem.

 

O país do extraditando não adotara Marx. Porém, este escrevera: “Um código do povo é a sua bíblia de liberdade”. A frase é isolada e nem dá pra acreditar que ele tenha dito isso. E fiquei me lembrando das lições de sociologia numa cruel pergunta de como “buscar a maior alegria para o maior numero de pessoas” sem se dirigir a um corte da liberdade, para não dizer de uma mediocridade horrorosa. A liberdade não se ajusta a um totalitarismo. Os exemplos estão aí, gritantes.

 

Porém, vamos às palavras. Como traduzir o tipo penal, se a regra fundamental é a precisão terminológica, em que se afaste, terminantemente, qualquer analogia ? Quero lembrar que se não houver absoluta identidade a extradição não pode ocorrer. Então? Como enquadrar, nas colunas da Justiça, fatos da diversidade humana, que teoricamente podem ou não estar sujeitos à criminalização, sem o viés de doutrina “correcionalista” materializante/ moralizadora ? E se estiverem presentes resíduos de violência física ou psicológica de rituais religiosos de povos que se regem por teocracias? Lembro o que li outro dia da lavra de Alamar Regis, falando que nem Cristo conseguiu agradadr a todos:” Por causa da diversidade de óticas, de cada um, a criatura humana é mais ou menos cega, mais ou menos irracional, mais ou menos insensata, mais ou menos indigna e mais ou menos desonesta. Ela não consegue enxergar as coisas como elas são e muito menos as pessoas, como elas realmente são.”

 

Vou à literatura. Me concentro na poesia. Como vejo-a na musicalidade das palavras, entendo ser impossível sua tradução. Depois de ler Borges, em seu Oficio do Verso ( Cia das Letras) , me convenci disto. Mas, quanto à letra jurídica, como resolver a questão? Quando vi, hoje, as colunas( precisas na definição arquitetônica) do prédio ( foto) projetadas nas águas, que, em reflexo, as conformaram tortuosas, ao seu estado líquido borbulhante, me dei conta do quanto Héráclito teve razão. Eu me senti fugidio como um rio, o que reforçou meu convencimento de que a melhor maneira de definir alguma coisa é partir da premissa de que nada se sabe sobre ela. Toda definição é perigosa. Ou seja, tentamos ser precisos. Mas nós somos o rio. Fluimos, no mundo, na imprecisão de suas diversas gotas d´agua.

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 23h40
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26/05/2009


Uma Crônica em Verso

Acordo Canino

 


( Dois cães entraram em desacordo quanto a espantar um adversário comum

Até que viram a besteira que estavam fazendo)

 

Eu lato,

Tu lates.

Qual de nós

Se mostra mais Vira-lata

Se brigamos

Um com outro

Até pra latir?

 

_O alvo do latido

De nossa fuça ri.

E, nem está aí,

No seu rumo seguindo

Destemido.


_Não dá pra aquilatar

Que estamos

A desperdiçar

Nossa canina Energia?


_Se somos "racionais"

Ração é que comamos.

Um acordo de iguais

Logo então façamos.


“Eu aqui lato

Tu ali lates.

Nós aqui-la-tamos

Bons vira-latas

Que nós somos!”


Au,Au...uhhhhhhh

( Moral da história - Se até os cães podem se entender, por que não o fazem os seres humanos em seus pugilatos verbais? )

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 16h46
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24/05/2009


As lições de Jacques Tati

Das exclamações e das interrogações

 

 

É !!! Minha lua já não brilha com fulgor no cenário grego da filme da Mamma, isolada na helênica ilha do quadro de Klemantin ( acima) !

 

Bastou que eu escrevesse sobre os cães, no texto anterior, e já vem novo tema greco-canino. Não, agora nas gravuras ou nas telas que vieram de Siegen, mas no cinema. Sim, no Festival de Cannes ( o que isso teria a ver com os cães? ) em que o júri premiou com um “Um Certo Olhar”, o filme “Dente Canino”. Uma arte grega do cinema, com um tema muito original, quando os pais, diante do perigo que seus filhos corriam no mundo complexo da sociedade de consumo, resolveram criá-los, isolados, em casa. Isolados de tudo, até sem cachorro ( historicamente o primeiro e o melhor amigo do homem). A família unida que jamais será vencida! E somente ganhariam a liberdade quando o seu dente canino viesse cair. E naturalmente. Ou seja, nunca. Never, jamais, em tempo algum, portanto.

 

Sobre filme e Grécia, eu vi o filme Mamma Mia, cujo cenário, marcado pelo tom azulado, é uma ilha isolada do mundo. O filme é lindo, por todos os motivos. Especialmente o aspecto insular, lembrando o livro de Umberto Eco, A Ilha do Dia Anterior ( que nos permite uma viagem ao nosso isolamento interior) , uma obra de arte da literatura. Entretanto, o Mamma teve o Grupo ABBA o tempo todo. O tempo inteiro o assunto é festa. Uma alegre cantoria bacana de se ver.

 

Falar em Cannes, festa também foi como terminou a Mostra “Retrospectiva Jacques Tati”, um clássico do cinema francês. Eu sonhava em ver a preciosidade de “Parade”, que diz da vida cotidiana dos espectáculos circenses na Paris de 1974, que foi concebido para TV. Como foi o seu último trabalho, maravilha vê-lo, Tati, dançando, a passinhos curtos, nos seus 70 anos, o ritmo super ritmado da idade sem ritmo.

 

Sei lá se as novas gerações aprenderam cinema com este Mestre cineasta. Tenho minhas dúvidas. Aliás, se se fizer uma estatística de risos nas comédias, dificilmente se encontrarão competidores à sua altura. Em termos de uso da mímica então, creio que não o há, como ele demonstrou tão brilhantemente no “Cours de Soir” ( Cursos Noturnos, em que ensina a interpretar a mímica), em 1 967. E fico a me perguntar como um artista deste, tendo militado na guerra, conservou o espírito brincalhão de um comediante que sabia o que queria, sem uso dos péssimos hábitos de comediantes de hoje, com o seu menosprezo ao ser humano, sua condição de gênero, classe social e até às religiões, que não escapam do seu veneno, a título de fazer rir.

 

Volto aos caninos. Eles aparecem também em cena do circo do Tati. Iguaiszinhos à Mel da Nadya ( me lembrei deste nome russo pois Tati é russo-francês) quando se desespera para o passeio matutino, muito engraçadinhos, dançando ao som da orquestra circense, num espetáculo muito louco e divertido. Violinistas tropeçam, o bumbo rasga o couro, dedos se prendem nas cordas do violão, etc. Há uma beleza e conseqüentemente uma sensação de prazer em ter conhecido o espetáculo.

 

Um passeio pelo sentido de beleza, já que falamos acima do cinema grego, no leva aos tempos de Homero, com o "belo" associado à "verdade", ao bem, à exigência de consolação, para se contrapor à morte. Isto se repetiu com o dito por Kant, tanto tempo depois, associando, no que tange ao gosto, o belo à representação simbólica da beleza em todas as coisas distribuída. Uma justificativa interessante, pois fazer rir, ter bom humor, é um melhor remédio para viver. Isto pode-se dizer que caracterize o meu "certo olhar". Eu não premiaria um filme com o viés de humilhação às pessoas. Não o vi e nem quero ver.

 

Os “canes – no plural latino de canis” brilharam em Cannes. Por seus dentes ( kynodontos ). Quanto a este campeão do tapete vermelho, fico me perguntando porque motivo se aprecia tanto, mas tanto, o sofrimento de ver adolescentes ou jovens num campo de concentração doméstico, torturados por um poder paterno sacana. Porque um prêmio ao anti-belo? Pior, apelando para os pobres cães, que "emprestam" seu modo de ser aos caninos dentes, fortes para que melhor se alimentem os carnívoros e sobrevivam na selvageria de todos os dias.

 

Será que os novos cineastas viram os filmes de Tati? Enquanto espero a resposta, vejo que, tal no quadro de Klemantin ( acima ), há uma lua está mesmo na fase sozinha, esmaecida e gripada !!! Minhas exclamações já se tornam tortuosas interrogações ??? I have a dream!?!? Dê-me ABBA por favor.

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 10h41
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19/05/2009


Violência e Arte Visual

Do Anticristo, do Anti-Chê e dos cães de Rubens

 

 

Esta semana já começa com a indústria, o cinema e suas polêmicas. Um francês inventou um Dog-O-Matic ( lava-jato de cachorro). Está o maior sucesso. No Cannes do cinema, Almodovar diz que vai filmar a Guerra Civil Espanhola ( agora o bicho pega pra valer!). Além disso, outra noticia. É a vez do Anticristo, de Lars Von Trier. Criticam-lhe a muita, extrema violência. Também, por que não fez que nem o do Chê, que esqueceu o “paredon” ? Ficou no Anti-Chê, infiel. Só romantismo revolucionário. Uma beleza, que nem a referência de um admirador dele, dizendo do melhor do ardor revolucionário - O Dia do Ano Novo em 69, pós AI-5, nas areias de Copacabana. Que "amor" mais violento!!! Mas, sobre filme violento, chega. Pra que tanta apelação? Deixa pra lá. Não vejo e pronto. Nem que a vaca tussa ou cachorro lata. Ou cante. Como aquele da propaganda do RCA, no gramofone ( acima).

 

Por falar em cachorro, esse bicho sempre recorrente em minhas observações. Fui ver a coleção, raríssima, de Rubens. Antes só tinha estado perto delas no Louvre. No Louvrirtual. Hoje é fácil. Só não vai quem não quer. Mas a que fui ver veio de Siegen, terra do alemão, pra mim, um dos maiores pintores de todos os tempos e todos os universos.

 

E sabe que me chamou atenção? Os cinco registros de cães em seus trabalhos. Alguém vai me enxotar. Que isso! Vai ver Rubens, e é surpreendido por uma cachorrada! Não é. Preciso explicar. O que há na exposição é uma enxurrada de informações, das quais gravamos (estamos diante de temas que evocam técnicas gráficas, da xilogravura à água-forte), as que mais nos tocam. E sem esquecer que em nossa mineirice não podemos deixar de estabelecer os vasos comunicantes das obras de Rubens com o nosso Aleijadinho barroco. São produto do momento de Contra-Reforma . Já falei sobre a Biblia dos pobres, obra dos camerlengos. Por isso, logo identificamos na forte expressão de seus personagens, sua carnação, e movimento das roupas, o mesmo tom de evocação do Eterno. Haja espírito santo para tantas histórias.

 

A imagem do cão é de fidelidade. Docilidade cordeira. Um contra-ponto à pesada barroquice. E eles aparecem: numa das paisagens ( in Arco-iris), bisbilhotando os namorados. Outro, num momento da Medici ( Rainha), quando se casava, “por procuração”. Nesta o cachorro está sentado, olhando para cima, a dizer: “ Que mulher interesseira. Não acredito no que estou vendo”. Mais uma. A entrada em cena muito típica do canino – debaixo da mesa da Santa Ceia. E pior, roendo um osso! Nessa ele tem cara de pit-bull, e parece rosnar para o pé do Judas. E olha que o quadro se chama Preparação da Ceia, mas o osso ( possivelmente de porco), ele já houvera garantido. Já no quadro da caça do javali ele aparece muito medroso. E no dos leões, ele cai fora, literalmente. Afinal de contas, rei é rei. Cão é cachorro.

 

Certo que não se pode atribuir a Rubens a inserção dos cães em suas obras. Se o fez, foi com muita diplomacia, seu forte. É que era dele sempre o “tema central”, com seus valores tonais. Em seguida, passava a bola pra frente. Os auxiliares que se virassem, malgrado o controle, que teoricamente, sobre eles se fazia. Nesse vácuo é que entra a cachorrada, que nem o fazem quando a porta da igreja está aberta. Deitam e rolam. Tenho certeza que ninguém escreveu sobre isso até hoje. E fiquei intrigado com isso.

 

Deixando os cães de lado, a maior indagação, porém, me ficou quanto à violência desmedida das cenas. Aquele leão pegando desprevenido o caçador, pela barriga. O facão afiando cortando o pescoço de Holofernes, por Judite que estava se lixando, com aquela carinha de santa. A cara de mau do Nero. E a cena horrorosa do Juizo Final, onde os fiéis pecadores estão sendo atirados ao fogo do inferno, sob os olhares pouco interessados dos anjos e a alegria punk dos demônios, carnavalesca mesmo, tudo uma grande festa dos fins dos tempos.

 

Assim, dá pra ver que Trier não está fora de moda. O melhor é deixar o cara curtir os inferninhos da vida, com a violência de hoje, que pode estar até mais acirrada do que demonstrada por Rubens nos seus quadros e gravuras aqui trazidos, de Siegen, para nosso deleite ( e humor).

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 17h01
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18/05/2009


Um conto de fadas

Vôo de mente

 

 

 

Ela está mesmo a dançar

E estou alto a voar

Que nem um senhor do ar

Um condor

Sem dor alguma

Simplesmente a planar

Que nem ela está a dançar.


É que toma corpo

O impoderável,

Se, em dança demente,

Ganhar asas

Somente

Um pleno vôo da mente.

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 22h37
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