Ver para Crer
Umberto Eco, sempre por mim citado, escreveu um livro sobre a incredulidade. O título: “Em que crêem os que não crêem”. Não falarei sobre esta obra, que filosófica e religiosa, não cabe numa crônica. Mesmo sendo hoje o dia de São Tomé. Sim, aquele que não quis acreditar na história, que achava de carochinha, e quis botar o dedo na ferida. Se deu mal o coitado. Quis dar uma de engraçadinho e caiu do cavalo. Ficou como símbolo da incredulidade assim de graça. Ou seja, mesmo diante de um nariz grande de Pinocchio, ainda achava que o cara não estaria mentindo.
Diante dessa confusão no Senado da República, eu me lembrei de um texto latino sobre um dos Imperadores de Roma. A gente traduzia no colégio, diretamento da fonte. Não tínhamos como não acreditar.
Um dia, chegou o Professor, muito brincalhão e apresentou o texto a ser traduzido. Era sobre um Cavalo que o Imperador nomeara Senador. Era um texto intrigante. Ou melhor, excitante. Muito excitante mesmo de nossa imaginação adolescente, pois a gente via o Cavalo, de terno e gravata, fazendo as leis da República Romana, com toda aquela filosofia herdada dos gregos e de tantos outros povos que eles dominaram militarmente.
Não dava para acreditar. Pior ainda quando o texto disse que o maluco Imperador nomeou também o dito Cavalo, Incitatus, assim o chamava, um Sacerdote e mais, construiu-lhe um Palácio de Mármore.
O dito Imperador era um doido varrido, odiado pelo povo, mas amado pelos colegas de farda, pois crescera no meio deles, num acampamento militar, tanto que seu nome foi dado como lembrança à palavra “caliga”, que era um calçado militar, uma botina ou bota, dessas grandonas que eles usam para pisotear o inimigo numa guerra que sempre foi e será sempre a mais maluca das invenções do animal irracional chamado ser humano.
Quem nunca leu sobre isso, por certo vai rir na minha cara. Não é possivel que isto seja verdade ! Dirá. Mas aconteceu mesmo. Não se trata de uma metáfora bíblica, dessas que a gente entende do jeito que quiser. Aliás, a idéia usar um cavalo como protagonista de uma batalha já fora usada em Tróia. Não se pode dizer que original. Mais atrevido porém foi Caligula, ao fazer um Cavalo um Senador, o que até que seria, para a época, admissível, para não dizer "justificável" – humilhar o instituição-Senado e menosprezar o religioso, todos, sem servir ao povo, uma bagunça danada, envolvidos em falcatruas mil, e como ele, Imperador era movido a orgias e excessos, quis dar um castigo à altura do que sabia fazer, exercendo ao máximo dos máximos sua autoridade, já que seu lema era “oderint dum metuant”, ou seja, que me odeiem, os cidadãos e de mim tremam de medo.
Quando hoje, a gente vê sua imagem esculpida em mármore, a gente nem pensa que o cara aprontou tanto e fez tanta proeza. Parece um sujeito dócil e bonito que nem a de David, naquele estátua onde ele está pelado, com as impudicícias à mostra, alheio ao que estiverem dele falando. Mas a sua história deixou marcas. A gente ia traduzindo as palavras e, digo a verdade, tentando não acreditar que os genitivos, ablativos e gerúndios estivessem grafados de forma errada, tamanho o horror que dava o texto em nossa cabeça incerta.
Nos tempos de hoje, eu vendo esta confusão danada no Senado, eu me lembrei daquele tempo. Nem sei porque. Ou melhor, até sei. Pois também não consigo acreditar no que estou lendo nos jornais, por exemplo quando se fala em votos secretos, verbas secretas, atos secretos. É segredo demais escondido, só revelados cinco, oito, dez anos depois.
Esse pessoal fica criando estes fantasmas, novos incitados marimbondos, com suas botinas caligulares ficam chamando por uma solução radical como se a tal de democracia fosse forte suficiente para tanta bandalheira.
São Tomé, Rogai por nós nesse seu dia. Será que é hoje mesmo? Nem dá pra acreditar.








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