MINHAS CRÔNICAS - MEU SENTIR


26/11/2009


O sino da Praça da Sé

Leio nos jornais, pródigos em notícias trágicas, que caiu o sino da Praça da Sé. Nem São Paulo protegendo, ele ficou no pedestal. Caiu parte da ponte da rodovia e agora, bem no centro, o sino. Da Sé.

 

Por quem os sinos dobram, já que de longe, os ouço. E me pergunto. Deixo de lado a objetividade do “cadáver” do objeto caido e me volto à subjetividade do significado do ocorrido.

 

De plano, fico a me debruçar sobre a simbologia dos sinos. Num grande espectro, tais cores de arco-iris, vou da alegria do nascer à tristeza do morrer. Vou às festas. Vou às exequias. Sinos dizem respeito à exatidão. Das horas, uma vez que, por elas, os habitantes dos lugarejos programavam sua agenda.

 

Nada melhor que ambiente de uma cidade para refletir metafisicamente sobre o tema. De que valeria um sino escondido na floresta? Sonar para quem?

 

Cai o sino da Praça da Sé. E ali, no chão do jardim-sem-flor, mal-cuidado, ele queda-se inerte. Seu badalo, simbolizando o balanço entre o bem e mal, trindades já não toca. Seus metais de liga do estanho, ferro e prata, em bronzeado corrompido pelo azinhavre, dureza alguma já registram. Está, parte dele, enterrado no esterco do jardim, estrumes dos pombos que comem pão picado e de cães que passeiam com os seus donos e de ratos, já que ali os há em abundância. Completam o cenário, os restos de fumados papelotes de "crack", ali postos fora, sob o olhar resignado dos transeuntes no caminho do metrô ou dos bancos da Catedral.

 

Os sinos e as cidades. Esta relação me lembra o livro de Autran Dourado, os Sinos da Agonia, contando a vida modorrenta, mas carregada de romance, de uma familia mineira de um lugar fictício na Minas barroca no Sec XVIII. Um dos personagens, Januário, observando a cidade de Vila Rica do alto da Serra do Ouro Preto, refletia sobre seu destino, suas atitudes. No momento, os sinos dobravam. E como os sinos dobram e redobram, até hoje, por ali. E ele se perguntava se era para ele ou para quem? Uma agonia...

 

O cair de um sino é um bom momento de uma crônica do Meu Sentir. Dá pra ir, mesmo com um discurso indireto livre, até a Flaubert, quem sabe, e pesquisar, dos habitantes que passam ao largo da cena, pesquisar os seus desejos secretos, seu íntimo pensar, sua inquitude inquietante, que pude sentir da última vez que passei pela Praça da Sé, quando meu olhar se cravou no relógio de algarismos romanos, e logo acima dele, vi a estrutura de madeira que sustentava um sino que devia ter seus 500 kg, a uns 10 metros de altura.

 

Isto não vai dar certo. Pensei. E agora o vejo, pelos jornais, no chão. Queda-se ali, inerte, como disse. E fico, com saudade de ver Ingrid Bergman e Gary Cooper no cinema, lembrando o best-seller de Heminguay a me perguntar: Por quem os sinos dobram?

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 11h05
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22/11/2009


Os dicoques de Bonito-MS

Acabo de retornar do Pantanal matogrossense dos sul. A natureza que chama para se lhe aprecie sua beleza natural. O rincão brasileiro onde se vê a terra prometida de muitos. A cultura do nosso país do leste que tem um Manoel de Barros para, cantando as lindezas do interior, tornar desnecessário o exercício de escandir seu verso em unidades fônicas. A delícia de sua poesia está no som e no coração que fala. São versos, como disse, concebidos sem pecado. Está no tonitroar da sinfonia dos dicoques. Sua busca pelo esgar da palavra me inspirou a escrever esta crônica do meu sentir. É Bonito-MS.

 

Bonito é bonito. É nome do lugar, que vale por seu adjetivo. E pela sinfonia acima referida.

 

Mas, me questionarão muitos dos leitores, sobre o preciosismo do dizer. Dicoque? O que é isso? E uma expressão afrancezada ?

 

Nada disso. Depois de umas cinco dezenas de anos, eu os vejo de novo. Aqueles seres, acocorados, de cócoras, "dicoques", o que lhe dá o nome pelo qual, na minha infância, eram designados. Um sapo.

 

Ainda há meses, estive na região Norte e curti os muiraquitâs batráquios. E me lembrei deles. Mas não os vi ao vivo. Somente tive contato com eles nas pequenas esculturas de miritis ou nas lojas e feirinhas de artesanato, em seu colorido verde forte, e sua cara safadinha muito feliz, pois se tornou o mais valioso amuleto da Amazônia Ocidental, quando o grande rio despeja suas águas no Atlântico.

 

Os muiraquitãs do Norte nem sempre estão acocorados. Os de Bonito, sim. Estão sempre na posição pela qual eu menino os via sempre: “ de cócoras”. Não os vi feliz. Só à noite, quando, logo ao por do sol, começava a mostrar sua cantoria, em mil mi-bemois e si, sintonantes com os dó-maior e fás. Eram rãs que saltitavam por cima de uma pauta musical. Uma comunicação que logo entendi, pois voltei ao tempo de criança, ao tempo em que ainda desconhecia os alexandrinos clássicos ou as quintilhas e sextilhas de Castro Alves ou Augusto dos Anjos, abaixo, respectivamente, nas quais, hoje, está o meu sentir, depois de ouvir os dicoques de Bonito.

 

“ Ontem à tarde, quando o sol morria

A natureza era um poema santo,

De cada moita a escuridão saía,

De cada gruta rebentava um canto.

Ontem à tarde quando o sol morria.”

 

“A passagem dos séculos me assombra

Para onde irá correndo minha sombra

Neste cavalo de eletricidade?!

Caminho e me pergunto, na vertigem:

_Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?

E parece-me um sonho a realidade.”

 

Pois é. Pode ser que se reclame da pose humilde dos sapos, animais que muito foram escorraçados por sua designação, ou lembrados por indignidade, de estarem acocorados. Começa isso no latim, onde alguém os viu como bufões, com o seu nome científico de “bufo marinus”. Depois no conto da princesa, que todo mundo conhece pela metamorfose horrível da (in) felicidade. E até na politica, onde alguém foi chamado de sapo barbudo cujo falar deu até um dicionário, fora o palavreado político, que nos obriga, cidadãos a ficar "engolindo sapos", ou "sapas" ( estas as mais perigosas, com certeza!).

 

Se assim o é, que fiquem dignificados pela minha lembrança de como os chamava em criança, ou até por sua serventia, pois quantos testes de gravidez suas fêmeas puderam dizer a casais que desejavam seus filhos dando sinais o mais cedo possivel em tempo que nem se sonhava com ressonância magnética.

 

História bonita dos dicoques. Ainda mais se são se Bonito-MS.

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 12h17
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16/11/2009


O novo livro de Saramago

Hoje estou com Caim. O tenho nas mãos. Para os que não sabem, é este o título do novo livro do único Nobel da Lingua Portuguesa: Caim. A história da maldade no mundo, em quatro letrinhas. Coisa para um Nobel. E sempre me pergunto, em face da caracteristica da premiação, se tal tão cedo irá se repetir.

 

Posso dizer que Caim vale a pena. A primeira frase já vale o livro. De plano, uma preciosidade ver uma estória (h ?) tão surrada, contada e recontada, escrita, agora requentada, com um novo colorido de muita imaginação.

 

Posso me gabar de já ter escrito sobre o tema. É o que fiz há uns 3 anos, quando eu abordei a "teoria da realidade". É o que tento refazer. O que não é novidade. Na época eu assistira uma peça teatral onde um advogado foi encarregado de defender Caim. Missão difícil.  E ele apelou dizendo do bom caráter cainiano, que ele chegava até a levantar os pés para as formigas passarem e não as matar. O advogado teve de apelar, claro. Chegou a mostrar Jesus, à la Che, aquela barba e capuz revolucionário, passando pelo palco, pilotando uma barulhenta Harley Davidson, carregando uma loura chacrete, quase nua, na garupa !

 

Caim era um homem ecológico. Se não conseguia matar nem uma minúscula formiga, por que motivo iria matar o irmão, o único irmão? E tudo ia sendo atacado com muita sutileza, até que, na “reconstituição do crime” ( um dos bons espetáculos de pirotecnia que a policia teima em fazer porque dá muito ibope!!), surge nova cena, tragicômica, ao extremo. Abel, esfaqueado, com o corpo atravessado com uma faca de papelão barato, nela escrito “ tramontina”. E passa ele pelo palco com aquela jerigonça, sob as gargalhadas do público, que já havia chorado de rir do Che Cristo Bad Boy.

 

Pronto, a realidade foi enfrentada. O crime foi desmistificado. Caim foi absolvido. A realidade é Deus de hoje é diferente do mostrado na Biblia. Parece que, de fato, sempre se rende aos bem-humorados. Só que o autor da peça chegou ao extremo. Em alegria carnavalesca, colocou Jesus, festejando a absolvição, a dançar um samba-enredo da Mangueira com uma mulata muito bem torneada.

 

História estranha, que Saramago iria adorar, foi a que li recentemente sobre um "criminoso politico" que virou santo: São Longuinho, o protetor dos esquecidos. Sim, aquele cara a quem apelamos para encontrar coisas perdidas. Nesses dias apelei muito pra ele, pois perdi o celular, mas o santo da longa espada ( com que deu o golpe de misericórdia no sagrado coração, acertando na mosca, apesar de ser meio cego) fez ouvidos moucos ao meu apelo. Mas quem mandou que eu esquecesse de levar na bolsa o meu santinho? Bem feito.

 

Pra quem não sabe da história, ele recebeu de Che Cristo a honra de ser curado da doença dos olhos. Converteu-se, de soldado raso do exército romano, virou monge, dos mais contritos. E, indo pro céu, foi nomeado santo, cabendo-lhe ser o Diretor do Departamento Celeste de Perdidos e Achados ( DCPA ) o que vale tanto quanto receber uma destas polpudas indenizações por crime politico, principalmente estas de auto-exílio em Paris. Beleza dupla. Mas o Longuinho deve estar andando muito atarefado com tanta súplica dos neuróticos e psicóticos ainda vivos. Muita gente ainda está tentando beliscar uma beiradinha do bolo.

 

Bom. Voltemos ao título. Ambas as histórias ( e ) perpassam pelo nosso teatro cerebral e nos fazem estar bem humorados. Ainda bem. Loas a Saramago e ao teatro da vida.

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 10h46
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13/11/2009


Os cantos do fim do século

A falta de luz me atiça para lembrar das saias justas ou mini-saias! Principalmente agora que a Madonna nos visita e alguém, engraçadinho, já lhe coloca a culpa do apagão lulado que seria dos raios de Itaberá, das tempestades de Ivaiporã lá perto das terras sulpuavas.

 

Fim dos tempos...Vamos cantar e rir. Cantemos os cantos do fim do século.

 

Mudando de assunto. O título acima é de Silvio Romero ( seu 1º. Livro, escrito perto de 1 900) , um recifense que fez sucesso em Paraty, onde lá é o nome do Forum. Para refrescar a memória foi ele que começou a discutir o mito do Antonio Conselheiro em sua “campanha midiático-religiosa” para agregar os depredadores fanáticos do levante descrito nos campos sertanejos do Euclides da Cunha. As depredações, agora em laranjais, ainda estão por aí, como se está vendo em terras eldoradas.

 

Andei em elocubrações muitas sobre este exótico tema. Teimo em juntá-lo com os das vestais meninas semi-nuas. Fui ao livro de Helena Morghi ( Minha vida de Menina ), estudante mineira em terras diamantinas ( descrevendo os seus tempos de colégio ) quando, de repente, me pus a ouvir o que u´a mulher dos tempos modernos, na idade dos seus 43, diria de ter sempre estudado toda em escola pública, lá no interior – municipal, por exemplo, era uma saia azul plissada, camisa de botões branca com o emblema da escola, letras neo-góticas, sapatos pretos com meinhas. Na escola estadual (já no ensino médio) se ensaiavam calças jeans ou saia jeans, sempre abaixo do joelho, com uma camiseta branca tipo pólo com gola azul e emblema da escola. E ela completava, na época não gostava muito, achava meio fora de moda, gostávamos de estar sempre inovando. Os meninos, caso quisessem algo ver, que vissem os joelhos, as canelas e os torneados. Só e só.

 

Outra se lembrava que tinha até inspecção. É que o comprimento da saia era abaixo do joelho - se as alunas se ajoelhassem, a saia tinha que descansar no chão. Mas, claro, passada a inspeção era um tal de enrolação dos cós das saias e deixá-las bem mais curtas - assistindo as aulas com esse figurino proibido. Ah, o gosto do pecado!!!

 

Com razão o poeta Almeida Sena:

 

"Teus vestidos eu não acho

Mui decentes, minha prima :

São altos demais em baixo,

São baixos demais em cima !"

 

Elas - O uniforme era de um pano chamado “fustão”. Nada de fúcsias cores ou veludo chinês. Era composto de um vestido azul-marinho de saia pregueada, e mangas compridas, mas com punhos e gola tipo babadouro brancos. Diz-se que , no fim da aula, quando a sineta tocava erauma confusão, para não dizer vexame com o empurra-empurra, troças, apupos, torcida organizada, assoviação geral, mas fora da escola, pois lá dentro era um respeito total.

 

Eles - No antigo primário, camisa branca, calça curta azul marinho, sapatos pretos, a graxa em dia, e meias brancas, um avental (sem padrão de cor/modelo).

 

Todos, com a repetição, na cabeça dos versos do Almeida Sena. Tempos e versos para ser cantados.

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 19h27
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11/11/2009


As Vestais do Sec XXI

Herdamos a palavra VESTAL da mitologia greco-romana. Inegável a presença arquetípica da personalidade feminina, em especial pela imagem do "fogo sagrado", representativo da integridade e da inteireza.  Vestais, em seus longos vestidos brancos, as virgens-guardiãs do fogo sagrado. A pira perpétua do mundo inquieto e desiludido que, no fogo sagrado, busca contínua proteção.

 

E não é que, entre nós ( ou nóis, em neologismo mais adequado!!!), lá pelas bandas bandeirantes, vem um episódio das saias curtas juntar-se ao das saias justas. Um vendaval, o digamos. Bom, dá pra acreditar que se o hábito não faz o monge, por certo o vestido acaba fazendo a mulher, a prevalecer a idéia da tal presença arquetípica acima falada. Esse caso está dando mesmo no que falar. E, no meu sentir, não pode ficar sem o devido registro. De um lado, a lambança da contradição de "universidade x diversidade" , ou seja, onde era para se respeitar o outro impôs-se um desrespeito "criminoso", tudo produto da falsidade que vige entre nós, neste torrão latino-americano. De outro, a exploração exagerada, a ponto de, como estou lendo, estudantes de uma universidade de minhas redondezas, se despirem, e assim, se aproveitar do fato, para dar uma de aproveitadores para aparecer na TV. Horrível...

 

Por isso, o fato merece que eu divulgue o que escrevi num soneto ( eu o escrevi no meio de imbróglios politicos há uns 3 anos, mas pretendo que valha hoje ). Assim.

 

 

 

Vestal desnuda


Oh, desta tupiniquim república magnífica vestal,

Tão branca , transparente, digna, sant`impoluta,

E que ora te misturas a podres frutas, vendaval,

E mostras, de vez, oculta face de u´a velha puta...


Não ! Injustiça cometer não posso. Me perdoem

Todas as putas em sua inculta, ingênua santidade ,

Se seus corpos doam e castigos outros sofrem,

Na verdade em su´ alma é que mora a castidade.


É que crimes tão grandes de vestais enganosas

A tantos iludem pela vida afora um pobre inculto:

Vitimado populacho de promessas lacrimosas,


Que castigo não há pra desfaçatez tamanha

Que dizer que vermelho é branco, um insulto

Pra uma cidadã cabeça, tão nojenta artimanha...

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 12h26
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06/11/2009


A poesia lirico-perfumada de Maciel Monteiro

"Era já posto o sol, A natureza em ondas de perfume se banhava..." ( São 18:30hs)

 

A crônica de hoje é o meu sentir da junção entre o perfume e o soar dos versos, me atendo ao que me inspira o que veio dos helenos. Inicio declamando assim:

 

“Formosa, qual pincel em tela fina debuxar jamais pode ou nunca ousara;

formosa, qual jamais desabrochara na primavera a rosa purpurina;

formosa, qual se a própria mão divina lhe alinhara o contorno e a forma rara;

formosa, qual jamais no céu brilhara astro gentil, estrela peregrina”

 

De quem um texto de tanta pureza e preciosidade lírica? Não foi Gonzaga, nem Cláudio Manoel, nem Drumond, nem Alvarenga e nem Bocage ( que apesar de mestre do verso ficaria para trás na comparação lírica com o poeta desconhecido que escreveu sobre a formosa mulher, acima idealizada a quem ele queima o incenso de sua adoração).

 

Sim. Trata-se do pernambucano Maciel Monteiro, nascido nos primórdios de 1800, médico formado em Paris e que, na literatura, primou pelos versos líricos de inspiração de Lamartine e Victor Hugo.

 

Eu me lembrei desse poeta, lendo sobre o perfume francês Channel 5, com a seguinte evocação de tal perfume ser tão suave que um sheik, por mais famoso que fosse, estaria a dizer à sua amada:

 

“Eu gosto de ver

Uns olhos gentis; Mas, quando os teus vejo,

Seu doce lampejo

Me faz tão feliz.”

 

Numa das aulas de um Curso de Literatura sobre poetas Líricos, publicou-se uma resenha no Diário de Pernambuco, em 1 863, em que se dizia, com muita convicção, que “ Maciel Monteiro foi o genuíno fundador do lyrismo brasileiro. Seu verso tem muito perfume e muita unção do verso lyrico de Athenas que melhor corresponde à estética física do Brasil e ao sentir e crer dos brasileiros.”

 

Bom, isto dito quase 50 anos antes de 1900, tem lá, para a época, o seu sentido. Mas hoje, depois de Maciel, quem veio? Muitos, sem dúvida.

 

Minha crônica, pelo menos, fica, com estes versos de Monteiro, mais perfumada.

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 18h54
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03/11/2009


Homenagem a Claude Lévi-Strauss

Quem lê as crônicas do meu sentir, por certo poderá dizer que lá se vai longe o científico. Nada disso. Esse belga que hoje falece, aos 100 anos, O Professor da USP, cujos escritos sócio-etnográficos tanto nos disseram da alteridade, do respeito ao outro, do ver e sentir o outro, é uma lição de vida. Ele se vai, o que ensinou, fica. E poucos sabem que muito que disse teve fundamento em seus contatos com os nossos índios e com o nosso modo de vida neste Brasil ainda desconhecido. Nada como um ENCONTRO, diante do qual, de repente, estamos.

 

Encontro


Numa sala de espelhos

Em quatro cantos colados

Eu me vi

Em quatro ângulos.


Ao Norte, Eu à esquerda. À Leste Eu lá de esguelha.

A Oeste Eu sem eira.

Ao sul, Eu sem beira.


Eu era todo alteridade:

Muitos eus em meus eus muitos.


Resolvi me somar

Em 360 graus.

E me achei:

Antes, Sandeu.

Agora, Sou eu

Cheio de alteridades

Por todos os lados.

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 18h57
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30/10/2009


Em tempo das palavras

Libriano ( ou quase ), Francis, o Hime, está fazendo os seus 60. Por sua vida completa de música e letras, eu o homenageio.

 

Estive no Amapá e aprendi um pouco mais com palavras curiosas que ora  na cabeça eu tenho e repito: pítia, pitiá e pitiú. Coisas dos deuses e dos oráculos, junto com a natureza maviosa e o cheiro salgado do pequeno crustáceo ou peixe salgado amazônico, tudo absorvido na vastidão do mundo d´agua e do mundo de florestas, sob o sol na linha do Equador. É uma oportunidade de ouro.

 

Tudo numa mistura certa.Ao tempo certo. Palavras certas, indicando, respectivamente, deusa, fruta( de arroxeado interior carminzado, em forma de alcachofra) e o cheiro forte, muito forte vigoroso. Sem dúvida a magia das palavras que o Francis, com suas barcarolas nas pautas musicais junto com a arquitetura das palavras brasileiras é capaz de produzir para nos encantar. No caso, as três palavras, com as mesmas letras de sonoridade tamboril, mas com acentos diversos, indicando elementos diversos que devem se agregar numa única idéia, a de exaltar a beleza conjunta das mesmas, nas suas circunstâncias.

 

Nunca é demais lembrar os exemplos da própria natureza se metamorfoseando ou no conviver de dois organismos dessemelhantes, nos espetáculos de helotismo, comensalismo, parasitismo e mutualismo, uma simbiose, enfim, como a flor e abelha, uma baleia e a rêmora, as algas e cogumelos, estes entrelaçados em líquen.

 

Não são estes exemplos de simulacros nem qualquer fantasia sem realidade, mas podem ser metáforas para serem exploradas na imagem de algo que se queira mostrar com o enfoque de reforço da linguagem a que nos referimos acima.

 

Afinal de contas, estamos em tempo, de 60 anos de Hime e também de suas palavras, não somente as escritas, mas as musicadas tão harmoniosamente como o soube fazer.

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 19h41
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27/10/2009


Os cães de Val-de-Cães

Uma viagem sempre proporciona uma visão de mundo. Pode ser do Word Web. Sim. Numa crônica eu pretendo que este mundo caiba nas condições universais da ação comunicativa. Posso falar dos Gansos de Manitoba. Ou dos vermelhos Guarás do Mangal. Ou dos Uburús do Ver-o-Peso. Ou dos ratos de praia bem penteados, já que falei dos da 23 de Maio.

 

Em tudo, o meu “ato de fala” neste mundo de Deus. Mercê de Espirito Santo, para ser mais preciso. “O meio é a mensagem”. ( frase de um canadense de Manitoba). O receptor dela ganha voz. Ganha poder. A web governa o mundo.

 

Na viagem , nova cena. Amazônia. Desfila-se a terra, água inclusa, dos primórdios das forças de mar e ar na defesa do território e suas respectivas artilharias. Muitos itens da história que a gente vive só mesmo estando lá. Não nos livros em que cada um dá sua versão. E acabamos no meio de cenários do imaginário, como Buzatto fez com o Soldado do Forte onde nunca aconteceria uma batalha, exceto a que ocorria diariamente no interior do personagem, centro da narrativa. Uma pretensão de intelegilibilidade.

 

No escudo da Marinha do Val, eu vejo dois garbosos cães sob o fundo azul. Hoje, o fundo é do Grande Rio. Outros cães continuam lá. Não tão garbosos. Os tempos são outros. Não cabem, estes novos cães, embora ainda no vale dos mercenários monges, em qualquer estudo heráldico. Quando muito, ficariam debaixo da mesa da cozinha, à espera de suas migalhas. Os cães são outros. O mundo, agora da Web Word, é outro.

 

Falam os gansos, os guarás, os urubús, os ratos e os cães. Tenho uma pretensão de validade tematizada. Os animais, em sua fala e nesta minha fala, são pressuposto para as demais pretensões, embora em nível subjacente.

 

Falo do mundo universal, da linguagem da web, que daqui a pouco, divulgará, por este mail e em mails muitos, minha pretensão de veracidade ou sinceridade. De um lado, a beleza do mundo, no vôo das árvores referidas, realce aos urubús, os nossos corvos em seus cacorejos de galinhas pretas metidas a águias, que varam e plainam, em voo leve, os nossos céus e comem as carniças que lhes sobram, mesmo que tenham que por elas brigar no leito das margens do Rio Guamá, no Ver-o-Peso.

 

Falei das aves. Agora falo dos terrestres ratos, escondidos em suas tocas, prontos para a rapinagem. E dos cães ( http://paraclito45.fotoblog.uol.com.br/photo20091102100759.html ). E os vi, a estes, tristes, em grande expectativa dos dias seguintes. Eram cães cujo porte não os permitiam figurar no escudo da Marinha. Mas eram humildes. Esperançosos. Mesmo em sua pobreza, neles se repetia o mesmo erotismo dos cães do escudo do Val-de-Cães, metidos em suas botas de cano alto, sem babas de ferocidade.

 

Como é curiosa esta geografia animal do nosso grande Brasil!

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 20h26
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20/10/2009


O horário de Verão

 

Estou no aeroporto prestes a embarcar para Macapá.

Fazer o que? Todos verão. Espero. E entre o ver no futuro e o ver, presente, uma questão de tempos de uma conjugação de verbos, estou eu a curtir esse tempo de confusão.

Sempre que falo em tempo, relógio, etc, eu me lembro de Umberto  Eco e seu Livro, A Ilha do Dia Anterior.

A lembrança das cenas desta bela obra vem a propósito. Afinal de contas vou sobrevoar, daqui a pouco, o mais belo desaguar de águas do maior dos rios do mundo, num oceano de muitas águas mais. Elas vão brigar entre si, pororocar muito, em borbulhas tantas que verei na jusante e montante da janela do hotel onde estarei hospedado, sob a guarda do Forte do São José. Uma Fortaleza, aliás. Linda. Protegendo o grande Rio.

De lá estarei mirando um navio fundeado longe, para onde irei em minha imaginação de um náufrago, irei encontrar uma corda e subir a bombordo ou estibordo, sei lá, e lá encontrarei, debaixo da linha do Equador, o centro de todo este mundo de Deus, onde a água somente desce direto, sem fazer curvas na bacia da pia de lavar o rosto.

E ainda estarei sob esta mudança de um horário a que meu relógio biológico tenta se ajustar. Encontrarei dentro do navio abandonado um monte de relógios, todos sincronizados no mesmo tempo, funcionando há milhares de séculos, regrando em tempos , a vida dos homens , das plantas, dos  animais, das algas, dos peixes, das aguas e suas pororocas.

E todos verão. Eu escreverei uma bela crônica dos tempos de verão, com chuvas de verão, com veranicos de solsticios que me encantam no pra-lá-pra-cá da sombra do sol se deslocando em cima do risco no chão, mostrando o lugar onde uma "faca" separa o norte e o sul.

E me lembrarei, muito e muito de....( nossa já estão me chamando para embarque ).

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 22h47
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16/10/2009


Coisas do Estilpão

Que isso? Que nome estranho! Nome de gente ou de cachorro? Um artista de cinema? Ou um terrorista ? Um monge, por acaso?

 

Calma. São tempos de eleição. Tempo de estranhenzas e estranhamentos. O blá-blá-blá está no ar. Outro dia disseram que o “Presidente é o Cara”. Estilpão, eu também o digo, é o Cara. Não é que ele seja um tipo de pão. É simplesmente uma referência filosófica, veja só.

 

Com a expressão usada para o Mr President estou sendo obrigado, para me situar, a me meter numa filosofia de linguagem. Claro. Eu tenho que entender este fato lingüístico, já. E a partir da linguagem ordinária. Comum do povão. Acho que nem preciso recorrer a mais profundos estudos para compreender esta linguagem como interação social.

 

Outro dia ouvi alguém falar de um Pinóquio Retirante ( PR). Agora é o Cara. Gente daqui falando. Gente de fora ( mundo global ) falando. Mas por que não acreditar, se até na Biblia, está dito que “as montanhas derretem-se, como cera, diante do Senhor de toda a terra.” ? Metáforas ao lado, até em SC as montanhas tem vindo abaixo. O mundo está muito mudado. Tornados no Brasil? Daqui a pouco, neste país do Cara, vai ter, além de marolinhas, tsunamis e terremotos.

 

Este conjunto de proferimentos linguísticos no processo de comunicação social está mesmo muito curioso. Estilpão que o diga. Mas quem foi este filósofo? Foi o Cara que negava a possibilidade de predicação. Desprezou o verbo “ser”. Ele, pobretão da vida, filosofias muitas na cabeça, negava a possibilidade de predicação, pois para ele sempre que dizemos que alguma coisa é algo, estamos dizendo que ela não é o que é.

 

Se for por ele, o PR não é o Cara, ou no máximo, um cara-de-pau. Coisas, de um lado, de Gepeto, e de outro, do Estilpão. O fato é que a referência, tanto a um quanto a outro, já está ficando muito familiar. De tanto falar, acaba sendo o que é, e por consequência, o que não é. Meras ficções simbólicas, como o das montanhas se derretendo e enlameando tudo. Tudo mesmo.

 

Em tempos de eleição, pode tudo, até candidato ficha-suja. Pode? Sim, não pode Estilpão? O Cara falou... Fim de papo.

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 08h58
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11/10/2009


O "cheiro" dos ditadores

No mundo em que se vive a contínua expansão das mídias audiovisuais, hoje deparo uma salada mista: a) O Nobel da Paz; b) O refugo das crianças ao afago de dois políticos; c) O radicalismo de um sindicalista;d) Duas Repúblicas, a das laranjas e a das bananas.

 

Seria possível uma leitura intertextual, diante de tanta diversidade? Vejamos. Tudo tem tudo a ver. Primeiro, me conecto à imagem dos ditadores. E a seu “cheiro”, virtual claro. O que será que os repugna, por exemplo, quando se acercam de uma criança? O ar de falsidade demagógica? Ou sua cara feia?

 

Segundo. O prêmio da Pax é curioso. Premia-se um futuro, o que é um bom investimento. Vale a pena, se for verdadeira a frase dos romanos: “si vis pacem para bellum” – se queres a paz prepara-te para a guerra. Ou a guerra é a luta pela paz por outros meios. Sei lá.

 

O refugo das crianças mostrado nas imagens – 20 anos - distantes no tempo e lugar, Rio e Salvador, da Dita Dura Figueiredo, que mais preferia o cheiro dos cavalos, e da Cara Dura Canditada mal-humorada, que não sorri, como vi do texto da Danuza. Crianças, ( o dia é quase 12/10), prestes a ganhar presentes, sabem das coisas. Reconhecem o que é bom e o que não o é. Pelo “faro”, digamos. São elas que nos ensinam, não nós a elas.

 

Ditador é sempre o que dita dores, mal-humor, radicalismo besta, cavalar. Pude ouvir, e o critico, o discurso radical de um cidadão, hoje, na mesa ao lado, Restaurante Nordestino. Contava vantagem. Ele se dizia sindical. Dizia que não perde um debate. Sua estratégia – menospreza o adversário. Não se envergonha de mentir. Nunca abre mão de suas convicções na luta pelo poder, nem que seja a custo de dinamites, tratores, formicidas, defensivos agrícolas, etc. Não falou em assassinatos, mas quase, já que lera a cartilha do cara bom de briga, radical. Algo que está se repetindo nas Repúblicas, laranjeira e bananeira, para não se chegar a lugar nenhum.

 

E devo selar o intertexto com o que li dos Ditadores. São tantos. Mas me fixo nos que tem relação com os radicalismos. Stalin, Hitler, Lenin e outros que estão em gestação. Adoravam, todos, se livrar de adversários. Matando-os. Não perdiam, de jeito nenhum, qualquer debate. A pena de morte aplicada a Zinoviev ( antigo companheiro de "partido") é um clássico da abjeçaõ e da brutalidade. Dá nojo. Asco. Mau cheiro de grande terror.

 

Quanto aos russos e alemão, tinham gosto pela arte ( Lenin, nem tanto). Eram mesmo “artistas”, em termos de amoralidade e crueldade. Hitler, semiculto autoditada. Chaplin o derrotou, sem palavras, num sopro de poucos minutos, em sua inesqauecível sátira do grande ditador. Déspotas, todos. Burocratas, menos o Stalin, embora deste, Trotsky tenha dito que era a “quintessência da burocracia”. Talvez estivesse querendo dizer o contrário.

 

Bom, fico imaginando o que fariam com o Nobel da Paz, se o ganhassem, como o Obama. Que saia justa danada !

 

Como estamos em outros tempos, confio em que foi boa medida a premiação. De nada valeria, por exemplo, dá-la ao Papa, ao Dalai Lama ou a Raul Seixas ou ao Zeca Pagodinho, por "deixa a vida me levar".

 

A questão é mais profunda. Primeiro por que Nobel, para que não sabe, era um químico, que morreu numa experiência de fabricação de material explosivo. Pummmmm....Foi para os ares. De certa forma, um mercador da morte, mas, rico, deixou a grana de herança, toda ela, para provar que estava errado. Que bombas não trazem a paz coisa nenhuma. Que valha o progresso científico para o bem da raça humana.

 

Se conferido o prêmio a Ditadores, eles não saberiam interpretar. Como a esperança do mundo está nas mãos de quem sabe das coisas, ficou em ótimas mãos. Beleza.

 

Será que as crianças das imagens acima referidas refugariam um afago de um prêmio Nobel como o Obama? O que vale é o cheiro ou o jeito? Como se explica, nelas, a rejeição a um mal possível?

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 10h48
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09/10/2009


O pé de laranja

Moro na Capital Federal. No meio dos espigões e dos falastrões. Vejo lá no fim das Esplanada as nossas gêmeas torres, que por certo gemem, ou melhor gritam aos céus, que, muito lindo por aqui, de vez em quando, as cobrem de nuvens, que refletidas no final da tarde do lindo sol poente, lhe dão ares de um incêndio. É fogo.


Por ali há um criadouro de “laranjas”. Entre aspas. No sentido pejorativo que todos sabem o que significa. Daí este meu protesto pela descaracterização de uma palavra que lembra a fruta do meu dia-a-dia de infância. O meu pé de laranja, junto com o meu pé de goiaba ou de manga comum. Pegaram justamente uma das frutas de maior carinho, que tanto me alimentou e ainda o faz, com o seu cítrico e a transformaram em símbolo de bandidagem. Uma sacanagem.


Fui um dos primeiros a ler o livro do José Mauro, em 1 968, logo que saiu a obra e ainda com o forte nome da LARANJA LIMA, de todas a mais apreciada, pela doçura e por sua imagem de saúde. Alguém me dissera que lembrava o "Tistou, de pouces verts", de Maurice Druon, que pôs dedo verde num garoto, pois precisa deles para sua história em 1957. Justamente por isso e mais, surpreso, e por que não curioso, quando o livro da laranja tinha, por personagem principal, um meu xará. Quis ver o que dizia o escritor sobre coisas de mim. Certo que as suas angústias, traduzidas no belo romance infantil, não traduziam minha vida, pois carinho tive, e muito grande, de minha família. Não igual ao menino da obra que foi buscá-la no bate-papo com um pé de laranja do quintal da casa para onde a familia acabara de mudar.

 

Que saudade ! Mas as observações do Vasconcelos, sempre muito doces, em suas palavras, diziam do quanto havia de riqueza na infância dos meninos daquele tempo. Um pé de laranja lima falando. José Mauro tinha essa mania de antromorfizar objetos inanimados, como no caso da falante canoa Rosinha, desta vez o protesto contra os desvalidos loucos internados sem dó nem piedade nos hospícios.


Por falar em maluco, doido mesmo fiquei eu com aquela destruição dos mil pés de laranja arrancados e tratorizados. Que absurdo modo de protestar! José Mauro nunca o admitiria. Tenho certeza. O seu pé de laranja lima por certo está chorando de dor. Eu quis ver uma imagem de uma árvore daquela, florida. Achei no http://www.flickr.com/photos/yvone/2255896139/ . Eu me refiz, com o verde escuro das folhas. Com o amarelo-ouro das frutas, tudo em contraste com azul do céu. E fiquei pensando se o pé de laranja não é o símbolo do nosso país de hoje. Só que espezinhado, arrancado, escalavrado por um trator de ignorância e menosprezo à lei, à justiça, à natureza, a Deus ( se bem que há padres que deram apoio à barbaridade). E pior, à minha imagem gostosa de infância, que relembro todas as vezes que tomo um suco, descasco uma fruta, em ritual que o meu pai me ensinou, calmo, tranqüilo, saboroso, divino.


Detestei essa forma de protesto em que usaram o pé de laranja, da mesma forma como detesto a palavra entre aspas para indicar o mal feito, a corrupção, a malandragem, ali pelo lado das torres gêmeas. Eu gostaria mesmo é que nos pés de laranja arrancados com tanta maldade houvesse mil caixas de marimbondo, pois bichadas, tenho certeza, não estavam, assim como não eram maduras à beira da estrada, pois de um quintal de cultivo o eram. Não dá pra acreditar, mesmo. Mas foi verdade.

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 14h05
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06/10/2009


Filosofias malfadadas

 

 

 

Está a Mafalda, mais uma vez aqui lembrada, diante da crônica anterior, pela lambança do exame nacional. Ah, nem...

 

Ela está pensativa diante do globo terrestre, como se estivesse a procurar o malsinado malfeitor que botou a mão nas provas e se escondeu em algum lugar distante deste mundo de Deus. Onde estará, por certo, em suas filosofias de indagações, agora indignadas, e com razão, está a fazer, com a cara de brava. Ah, nem...

 

E como este cara pode fazer isto, se todo mundo estava de olho naquele momento, incluindo a câmera do "big brother"?

 

E se ele furtou a prova, onde a teria escondido no primeiro momento?

 

a) Na memória, pois a leu rapidamente e guardou os temas principais; b) dobrou e colocou na carteira; c) guardou na "cueca ", pois este o lugar mais apropriado depois do que aconteceu no mensalão; d) filmou a prova com o celular; e) colocou a prova dentro do sapato.

 

Bom. Este é um excelente teste para os que vem acompanhando minhas observações percucientes sobre tão intringante tema. Qual a resposta que o leitor daria? Todo mundo já sabe...Nem me diga que terá sido esta a possibilidade, pois seria improvável que a Mafalda viesse, com sua santa ingenuidade de criança , conviver momentos no ambiente tão  escuro e lúgubre como este que o leitor está pensando. Nem acredito. Ah, nem...

 

Sim, Mafalda. Nem precisa olhar mais. Já descobriram toda a trama. E como sempre, são os espertinhos, a querer tirar vantagem. Uma lambança, reafirmamos. De um lado, dá pena ver que a história do mensalão ( $$$ ) acaba de ganhar mais um personagem repetidor da genial façanha, confirmando a teoria do francês Gabriel Tarde, sobre a Imitação e seus efeitos. Por outro lado, ainda bem que descobriram rápido e vamos ver se não se repete mais um novo insólito episódio neste caso que vai ficar na história. Dessa vez, torçamos, para que não diga que não sabia de nada, que é mentira esfarrapada, que é uma perseguição ideológica contra os pobres ou minoria, etc, etc.

 

Olhe. Olhe bem, Mafalda, este globo terrestre. E fique brava, sim.  Desse jeito que você está, de cara amarrada. E lamente, querida, o quanto de sujeira temos em tantos lugares e especialmente aqui neste pedacinho de chão chamado Brasil.

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 22h26
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04/10/2009


A lambança do ENEM

A Mafalda está com a corda toda. Nunca fui muito de estar com revistinhas de desenhos nas mãos. Mas a da personagem-menina com suas "filosofias", desde a década de 60/70 veio divertindo o público das tirinhas com suas preocupações humanistas, sempre às voltas com seu papai, um vendedor de seguros, sempre carrancudo. Coisas da época entre pais e filhas, com aquela célebre pergunta sobre qual o futuro de sua menininha, com a sua inteligência perscrutadora e indagativa de tudo quanto há. E haja filosofias.


E não é que a argentina Mafalda, a famosa personagem da tirinha de quadrinhos, ganha sua notoriedade na notícia do malsinado passo maior que as pernas que se deu quando se ampliou o Enem sem muitas indagações sobre a promoção de status social que o sistema educacional veio dar à prova que, quando criada, tomo mundo abominou e ninguém dela queria saber!!!


Uma das questões da prova, salvo engano a terceira, aborda exatamente a menina, numa de suas melhores passagens com o seu papai carrancudo, mas sempre a postos para responder, do jeito que podia, ao que a menina perguntava. Tudo bem. Tanto podia ser a Mafalda, quanto Kiran Desai, menina mais nova que ela, indiana de 27 anos, autora premiada com o livro " O legado da perda" e que hoje mora em Nova York.  E como escreve bem!!!


Num mundo onde crianças muitas vezes se perguntam em situações de pais divorciados, beirando a passagens de psicanálise, diante do contraste das gerações e, por que não, as aproximações inter-etárias, a questão, que pretendia apurar o conhecimento do candidato diante da comunicação de uma tirinha, foi até bem escolhida. Nem sei se a Mafalda terá uma segunda chance, agora com a nova prova. Talvez coubesse, se eu pudesse sugerir, uma daquelas cenas com o seu coleguinha Felipe, que inteligente, não gosta da Escola, vive em crises de consciência, acossado pelo seu senso de responsabilidade.


É. Hoje estou vendo a Mafalda, uma criação do Argentino Quino, uma cidadã do mundo, pois um de seus desenhos interessantes é aquele em que está diante de um globo terrestre. Ela gostava muito de geografia e não é à toa que percorreu o mundo.


Mas, ainda em termos de sugestão, eu preferia mesmo é que alguém reescrevesse uma das tirinhas com um dos brinquedos prediletos da menina, uma tartaruguinha, que ela chamava de “Burocracia”. Veja-se a sutileza. O Enem foi vítima da burocracia mafaldada, pois a confusão que aprontou com a lambança da fraude, vai marcar, para sempre, a vida estudantil de milhões de meninos e meninos no seu primeiro teste diante da vida adulta- passar no vestibular. Mas eu fico me perguntando: Será que lá na última cidade do Acre ou do Amazonas, os alunos já tiveram oportunidade de ver as tirinhas do Quino? Não sei responder.

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 17h08
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