Estive ontem pelos lados do Parlamento. Estranho, cheguei justo pelo lado em que punham fora o lixo do dia anterior, todo encachoeirado de muitos resíduos da enorme queda d´água, envoltos em sacos plásticos, pretos, suspeitos. Os operários da limpeza eram ágeis, alguns, eles rasgavam os sacos pretos sem dó nem piedade. Não sabia por que. Mas logo vi, que envolvidos na sintonia universal os pombos que, por certo, fregueses constantes da operação, logo bicavam, catando, cada qual, o seu quinhão diário, sua bolsa-miséria, pois, coitados, são também criaturas do Senhor.

Fiquei imaginando humanos no lugar das aves, corvos, urubús ainda não havia, embora voassem pelo alto alguns exemplares, atentos como nunca. E em me disse: “estamos fritos com tanta sujeira.”
Junto aos pombos, dos quais eu já fiz um poema deles comendo pão picado enquanto eu passeava com meu cachorrinho, estava um outro pássaro, vestido a caráter, bem brasileirinho, verde-amarelo, azuladinho no bico, e cabeça esperta. A pluma do dorso- cinza, como pombos eram cinza-total, arroxeados alguns, com um bico um tanto atazanado, talvez de uma raça superior de pombos correio, tipos sedex, entrega rápida e garantida. Não lhes fazia concorrência, apesar deste mundo competitivo do parlamento, o tal pássaro bem comportado, afinal de contas, ele sabia que todos o andam bisbilhotando toda hora, com ajuda destes grampos eletrônicos, tanto que possuem uma intitulação de caráter metalinguístico. Seu nome rimava com CPI. Era um Bem-te-vi. Para eles, sob alvo constante de que seus segredos sejam divulgados, eles calam o bico, mas quando podem fazem um estardalhaço danado, principalmente agora que tem gente graúda na relação. E, na companhia dos pombos comedores de pão picado e lixo nobre parlamentar, por certo carregado de muito blá-blá-blá o dia inteiro, ele havia de estar em dia com a compostura depudatícia ou senatorial.
Produziu-se muito lixo naquele dia, imaginei. Chegaram bem uns 20 conteineres. Será sempre assim? Montesquieu, aquele do Espirito das Leis, pensara nisto ? E os bichos marcaram firme a presença e eu, também, como bom observador do que acontece em um mundo estranho como aquele, o do Parlamento, lugar onde se fala, fala, e se cochicha, cochicha, com ou sem cafezinho ou vaquinhas, etc e no final sai uma lei, tipo salsicha, um embutido qualquer, com o “exequatur”, palavra bonita para um “cumpra-se” da autoridade respectiva. E fiquei me lembrando se aquilo que foi feito tem algum valor aceitável ou se não era um simples fazer por fazer. Li nos jornais que 60% das leis nas casas de leis simplesmente rasgam e pisoteiam a CF. O resultado do lixo produzido pode, estatisticamente, mostrar algo. Mas não me atrevi a chegar mais perto. Afinal de contas aquela não era a seara de um Advogado. Eu ficaria na minha verve de escritor, até que cheguei em casa, e ainda com o Bem-te-vi na cabeça, encontrei o que disse a filósofa russo-americana Ayn Rand, (judia, fugitiva da revolução russa, que chegou aos Estados Unidos na metade da década de 1920, mostrando uma visão com conhecimento de causa ):"Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto-sacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada". Ou como eu disse: estamos fritos.
Obs final – Fiquei sabendo por um colega expert em ornitologia que bem-te-vi é ave da família muito estranha: a dos “tiranídeos”. Temo por eles. Podem ser chamados a se explicar perante a tal Comissão da Verdade. Será?


Quem escreveu sobre ele foi Ésquilo, mas hoje falará o Espírito. Prometo, nestes tempos de "Cosa Nostra", ser breve. É que a coisa tá feia aqui no Planalto. No meio de uma leréia danada, uma léria logomaquia. Enfim, cum converseiro e a cada momento, um com uma noticia, vindo da cocheira. Cidade do mando politico é assim mesmo...



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